Avaliação: 6,0 (de 10,0)
Interstellar, 2014. Direção: Christopher Nolan. Elenco: Matthew McConaughey, Anne Hathaway, Michael Caine.
Admirado por uns e duvidado por outros, Christopher Nolan é inegavelmente um dos grandes diretores da atualidade. A ótima sacada em Amnésia (2000) foi a narrativa invertida que engrandecera um plot simplório, tornando a trama bem mais atraente e envolvente. Já em 2012, Nolan entregou o suspense policial Insônia, que até o momento, foi o seu projeto mais modesto, mesmo assim, ótimo. Porém, foi com a trilogia Batman que o cineasta se consagrou. Aliás, não só se consagrou, mas como também ditou moda, servindo como referência para vários outros filmes de ação e/ou super-heróis subsequentes.
Com todo o sucesso dos dois primeiros "Batman's" e holofotes virados para si, Nolan sentiu-se inspirado para almejar vôos bem mais altos com projetos mais audaciosos. O primeiro deles foi "A Origem", explorando o mundo dos sonhos utilizando-se de um roteiro pretensioso (até demais). O problema é que a realização em si ficou aquém de toda a pretensão, deixando o resultado final com uma ingrata sensação de vazio. O segundo, finalmente, foi este a qual falamos hoje: Interestelar.
Assim como em "A Origem", Nolan são soube ponderar a equação pretensão x realização, esta mais importante do que as equações físicas e matemáticas que tanto aparecem dentro da trama e que pouco têm a dizer para espectadores leigos no assunto, como eu. A boa notícia é que "Interstellar" possui elementos mais interessantes e melhores abordados do que "Inception", embora isso não queira dizer que o filme seja ótimo. Um desses elementos é relacionado com a relatividade do tempo e como somos impotentes perante sua inevitabilidade (o choque que o filme nos submete logo após a equipe chegar no primeiro planeta após cruzarem o buraco é algo que dói na alma!). Outros desses elementos são os belos efeitos visuais e a eficiente trilha sonora que contribui para o processo de imersão e tensão da história. Dentre os méritos, não posso deixar de citar ainda a atuação de Matthew McConaughey como protagonista que, mais uma vez, se engrandece na tela e mostra o porquê de ser considerado um dos melhores atores que o cinema possui hoje.
Falando agora dos deméritos, o principal deles é o próprio roteiro. Quando a obra chega ao fim, num primeiro momento podemos ficar vislumbrados seja pelas mensagens, alusões ou pelo espetáculo técnico, porém ao processar horas depois, o que vimos de maneira mais racional e crítica, percebemos o quão comum e esquemática é a história: começa focando nas relações interpessoais para que isso dê um impacto emocional mais adiante, parte para uma viagem cheia de mistérios, reviravoltas (sendo a maioria delas previsíveis) e conflitos internos, se concluindo de maneira apoteótica e demagoga.
É também interessante observar que ao mesmo tempo que o filme tenta nos passar a ideia da grandeza imensurável de toda a existência, alguns acontecimentos mostram exatamente o contrário: em certo momento da fita um dos personagens perde sua nave, fica desacordado, vagando solitário e inconsciente pelo espaço e posteriormente, sem maiores explicações, é resgatado são. Usar o pretexto de ficção científica para menosprezar a inteligência do expectador, fugindo de qualquer compromisso com a coesão, não pega bem, muito menos para um cineasta que se preocupa tanto em explicar fatores científicos irrelevantes para a história de maneira tão didática.
Mesmo possuindo seus altos e baixos, "Interestelar" é um filme interessante e que vale a pena ser conferido. O que fica claro, pelo menos para mim, é que capacidade é algo que Nolan já demonstrou ter principalmente em seus projetos mais "simples", faltando desenvolver destreza e sensibilidade suficientes para transformar suas grandes ambições em resultados a altura delas.
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23/11/2014
18/11/2014
[CINEMA] Crítica: Cães de Aluguel
AVALIAÇÃO: 9,5/10,0.
Reservoir Dogs, 1992. Direção: Quentin Tarantino. Elenco: Michael Madsen, Chris Penn, Harvey Keitel, Tim Roth.
Texto publicado em 19/01/2013 no site CinePlayers.
O surgimento de um mito. Se fosse para resumir o primeiro trabalho de Quentin Tarantino como diretor em uma frase, seria essa.
Em "Reservoir Dogs", o diretor mostra, de maneira bem clara, sua oposição aos clichês hollywoodianos e com sua personalidade cinéfila, conduz um plot aparentemente simples e batido em um filme que enche os olhos. Logo em seu início, o longa incorpora os temas que virariam marcas registradas do cineasta: excessivo uso de diálogos e referências à “cultura pop”. Momentos antes de roubarem diamantes em uma loja, os “cães” estão reunidos em uma lanchonete debatendo sobre músicas da Madonna e discutindo sobre o porquê de dar ou não gorjetas às garçonetes. E por incrível que pareça, esses diálogos são divertidos, passando bem longe de causarem tédio, por mais que não tenham qualquer relação com a trama central.
Com o decorrer do filme, percebemos que a narrativa não segue a ordem cronológica comum. Então conhecemos uma outra característica do diretor: fugir do convencional. Qualquer outro cineasta de desdobraria para executar a cena do roubo aos diamantes.
Tarantino ignorou isso, filmando apenas os acontecimentos anteriores e posteriores ao evento, mostrando que o roubo em si não tem importância alguma para a história. Os personagens e seus instintos, esses sim são importantes. E as consequências são mais do que importantes: são oportunidades para que tudo vire um show de ânimos exaltados, egos inflados e sangue derramado. Ah, por falar em sangue, eis outro elemento que se tornaria sua marca registrada, e sem moderações.
O roubo não deu totalmente certo. Um dos cães era um tira traidor. Alguns morreram, outros se feriram. Tarantino faz sua própria versão de “Quem é o traidor?”. E quando digo “sua própria versão”, preciso explicar mais alguma coisa? Não se há preocupação alguma em revelar este segredo ao espectador apenas no final. Pelo contrário, todas as pistas são dadas de cara. A história não precisa se prender nos habituais segredos. O segredo é jogado na nossa cara, para podermos nos divertir observando os personagens se debaterem na dúvida até o fim.
Para entrar no mérito de atuações e parar, por um pequeno momento, com os inúmeros elogios ao condutor do filme, até o canastra Michael Madsen consegue fazer uma boa participação. Mas são Harvey Keitel e Tim Roth que roubam a cena como Mr. White e Mr. Orange, respectivamente. “Não acredito que ela me matou, Larry!”.
Cada detalhe faz de “Reservoir Dogs” uma obra-prima. Desde o já mencionados, até a escolha dos apelidos personagens (usando nomes de cores), a ambientação, a hilária história do banheiro e o final, que é um dos mais humanos da história do cinema. Quentin Tarantino faz um filme para agradar suas próprias paixões, sendo esse, talvez, o principal motivo para o seu sucesso. Originalidade, ousadia, precisão, despirocagem, loucura… Poderia escrever um livro de 500 páginas para descrever as peculiaridades deste grande diretor e este seu primeiro trabalho, mas, nesse momento, prefiro parar por aqui.
Reservoir Dogs, 1992. Direção: Quentin Tarantino. Elenco: Michael Madsen, Chris Penn, Harvey Keitel, Tim Roth.
Texto publicado em 19/01/2013 no site CinePlayers.
O surgimento de um mito. Se fosse para resumir o primeiro trabalho de Quentin Tarantino como diretor em uma frase, seria essa.
Em "Reservoir Dogs", o diretor mostra, de maneira bem clara, sua oposição aos clichês hollywoodianos e com sua personalidade cinéfila, conduz um plot aparentemente simples e batido em um filme que enche os olhos. Logo em seu início, o longa incorpora os temas que virariam marcas registradas do cineasta: excessivo uso de diálogos e referências à “cultura pop”. Momentos antes de roubarem diamantes em uma loja, os “cães” estão reunidos em uma lanchonete debatendo sobre músicas da Madonna e discutindo sobre o porquê de dar ou não gorjetas às garçonetes. E por incrível que pareça, esses diálogos são divertidos, passando bem longe de causarem tédio, por mais que não tenham qualquer relação com a trama central.
Com o decorrer do filme, percebemos que a narrativa não segue a ordem cronológica comum. Então conhecemos uma outra característica do diretor: fugir do convencional. Qualquer outro cineasta de desdobraria para executar a cena do roubo aos diamantes.
Tarantino ignorou isso, filmando apenas os acontecimentos anteriores e posteriores ao evento, mostrando que o roubo em si não tem importância alguma para a história. Os personagens e seus instintos, esses sim são importantes. E as consequências são mais do que importantes: são oportunidades para que tudo vire um show de ânimos exaltados, egos inflados e sangue derramado. Ah, por falar em sangue, eis outro elemento que se tornaria sua marca registrada, e sem moderações.
O roubo não deu totalmente certo. Um dos cães era um tira traidor. Alguns morreram, outros se feriram. Tarantino faz sua própria versão de “Quem é o traidor?”. E quando digo “sua própria versão”, preciso explicar mais alguma coisa? Não se há preocupação alguma em revelar este segredo ao espectador apenas no final. Pelo contrário, todas as pistas são dadas de cara. A história não precisa se prender nos habituais segredos. O segredo é jogado na nossa cara, para podermos nos divertir observando os personagens se debaterem na dúvida até o fim.
Para entrar no mérito de atuações e parar, por um pequeno momento, com os inúmeros elogios ao condutor do filme, até o canastra Michael Madsen consegue fazer uma boa participação. Mas são Harvey Keitel e Tim Roth que roubam a cena como Mr. White e Mr. Orange, respectivamente. “Não acredito que ela me matou, Larry!”.
Cada detalhe faz de “Reservoir Dogs” uma obra-prima. Desde o já mencionados, até a escolha dos apelidos personagens (usando nomes de cores), a ambientação, a hilária história do banheiro e o final, que é um dos mais humanos da história do cinema. Quentin Tarantino faz um filme para agradar suas próprias paixões, sendo esse, talvez, o principal motivo para o seu sucesso. Originalidade, ousadia, precisão, despirocagem, loucura… Poderia escrever um livro de 500 páginas para descrever as peculiaridades deste grande diretor e este seu primeiro trabalho, mas, nesse momento, prefiro parar por aqui.
[CINEMA] Crítica: Onde os Fracos Não Têm Vez
AVALIAÇÃO: 7,5/10,0
No Country for Old Men, 2007. Direção: Ethan Coen, Joel Coen. Elenco: Tommy Lee Jones, Javier Bardem, Josh Brolin.
Texto publicado em 11/11/2012 no site CinePlayers.
"Adaptação do livro de Cormac McCarthy, obra dos Irmãos Coen entra na lista dos filmes mais supervalorizados da história do cinema."
Alguém acha uma maleta cheia de dinheiro e o verdadeiro dono dela vai em sua busca, em uma caçada de gato e rato. Este argumento, por si só, já é batido demais. Porém, os Irmãos Coen colocaram uma pitada de "os tempos mudaram" em sua narrativa, sob o ponto de vista de um velho (e incompetente) Xerife, para tentar fugir do clichê. Isso seria bem interessante se fosse melhor explorado, uma vez que só se evidencia no começo e no final da trama.
Para piorar, o desenvolvimento do filme é carregado de falhas. Chega a ser patético o fato do bandido Chigurh (Javier Bardem) encontrar Llewelyn Moss (Josh Brolin), o portador da maleta, em qualquer lugar. No início, tal fato é justificável devido a maleta ter um localizador escondido, mas e depois que o mesmo é descoberto e retirado dela? Sem falar que estou até agora sem entender a parte em que Moss esconde a maleta no duto ventilação de um hotel e depois pega outro quarto, fazendo uma tremenda gambiarra para retirá-la. Lembrando que até essa cena ele não sabia da existência do localizador. Outra interrogação que ficou em minha cabeça foi: por que diabos uns assassinatos são mostrados e outros não? Se o objetivo foi o de tornar a trama mais complexa, não funcionou. E a maneira pela qual o veterano Xerife Ed Tom Bell (Tommy Lee Jones) é inserida na história, leva o espectador a questionar sua competência, chegando atrasado nas cenas dos crimes e sem falar que, em certo momento, ele vê os bandidos fugindo e prefere parar para ver o que aconteceu do que persegui-los.
Mas há também muitos pontos positivos na obra dos Coen. O mais destacável é a magistral atuação de Javier Bardem, que dá um tom assustador ao seu mitológico personagem, e faz muitos estragos apenas com um tubo de pressão para matar gado. A interpretação de Bardem e a caracterização de seu personagem faz o mesmo entrar na lista dos melhores vilões da história do cinema. O Oscar de melhor ator coadjuvante foi merecidissimo ao contrário dos outros 3 que o longa foi premiado. Falando em atuações, é sempre muito bom ter Tommy Lee Jones no elenco. Aqui, apesar de achar que o mesmo foi mal aproveitado, sua presença dá um charme a mais. Josh Brolin dá para o gasto, em uma atuação que não exige muito. O filme também contém alguns, digo alguns, diálogos interessantes e reflexivos. E quando existe o nome de Roger Deakins envolvido numa produção é certeza que temos uma fotografia magnífica e aqui, colabora para aumentar o tom sombrio e de suspense em algumas cenas. A mais memorável delas é a que Moss está em um hotel, percebe que Chigurh está lá, apaga a luz e fica com a arma apontada para a porta, observando os vultos do corredor pela soleira. Esses pontos salvam a produção do pior.
Quando o filme acaba (e por sinal o final é muito fraco), ficamos com a sensação de que "Onde Os Fracos Não tem Vez" poderia ter sido bem melhor. O rascunho é excelente, apesar da historinha clichê, mas contém furos gritantes de desenvolvimento. Existem detalhes no cinema que podem ser ignorados com facilidade e infelizmente isso não acontece aqui.
Talvez, o mais decepcionante foi ver este ganhar de "Sangue Negro" na disputa pelo Oscar de melhor filme. Definitivamente, a principal premiação de cinema do mundo não serve mais como referência de qualidade.
No Country for Old Men, 2007. Direção: Ethan Coen, Joel Coen. Elenco: Tommy Lee Jones, Javier Bardem, Josh Brolin.
Texto publicado em 11/11/2012 no site CinePlayers.
"Adaptação do livro de Cormac McCarthy, obra dos Irmãos Coen entra na lista dos filmes mais supervalorizados da história do cinema."
Alguém acha uma maleta cheia de dinheiro e o verdadeiro dono dela vai em sua busca, em uma caçada de gato e rato. Este argumento, por si só, já é batido demais. Porém, os Irmãos Coen colocaram uma pitada de "os tempos mudaram" em sua narrativa, sob o ponto de vista de um velho (e incompetente) Xerife, para tentar fugir do clichê. Isso seria bem interessante se fosse melhor explorado, uma vez que só se evidencia no começo e no final da trama.
Para piorar, o desenvolvimento do filme é carregado de falhas. Chega a ser patético o fato do bandido Chigurh (Javier Bardem) encontrar Llewelyn Moss (Josh Brolin), o portador da maleta, em qualquer lugar. No início, tal fato é justificável devido a maleta ter um localizador escondido, mas e depois que o mesmo é descoberto e retirado dela? Sem falar que estou até agora sem entender a parte em que Moss esconde a maleta no duto ventilação de um hotel e depois pega outro quarto, fazendo uma tremenda gambiarra para retirá-la. Lembrando que até essa cena ele não sabia da existência do localizador. Outra interrogação que ficou em minha cabeça foi: por que diabos uns assassinatos são mostrados e outros não? Se o objetivo foi o de tornar a trama mais complexa, não funcionou. E a maneira pela qual o veterano Xerife Ed Tom Bell (Tommy Lee Jones) é inserida na história, leva o espectador a questionar sua competência, chegando atrasado nas cenas dos crimes e sem falar que, em certo momento, ele vê os bandidos fugindo e prefere parar para ver o que aconteceu do que persegui-los.
Mas há também muitos pontos positivos na obra dos Coen. O mais destacável é a magistral atuação de Javier Bardem, que dá um tom assustador ao seu mitológico personagem, e faz muitos estragos apenas com um tubo de pressão para matar gado. A interpretação de Bardem e a caracterização de seu personagem faz o mesmo entrar na lista dos melhores vilões da história do cinema. O Oscar de melhor ator coadjuvante foi merecidissimo ao contrário dos outros 3 que o longa foi premiado. Falando em atuações, é sempre muito bom ter Tommy Lee Jones no elenco. Aqui, apesar de achar que o mesmo foi mal aproveitado, sua presença dá um charme a mais. Josh Brolin dá para o gasto, em uma atuação que não exige muito. O filme também contém alguns, digo alguns, diálogos interessantes e reflexivos. E quando existe o nome de Roger Deakins envolvido numa produção é certeza que temos uma fotografia magnífica e aqui, colabora para aumentar o tom sombrio e de suspense em algumas cenas. A mais memorável delas é a que Moss está em um hotel, percebe que Chigurh está lá, apaga a luz e fica com a arma apontada para a porta, observando os vultos do corredor pela soleira. Esses pontos salvam a produção do pior.
Quando o filme acaba (e por sinal o final é muito fraco), ficamos com a sensação de que "Onde Os Fracos Não tem Vez" poderia ter sido bem melhor. O rascunho é excelente, apesar da historinha clichê, mas contém furos gritantes de desenvolvimento. Existem detalhes no cinema que podem ser ignorados com facilidade e infelizmente isso não acontece aqui.
Talvez, o mais decepcionante foi ver este ganhar de "Sangue Negro" na disputa pelo Oscar de melhor filme. Definitivamente, a principal premiação de cinema do mundo não serve mais como referência de qualidade.
[CINEMA] Crítica: Corpo Fechado
AVALIAÇÃO: 7,5/10
Unbreakable, 2000. Direção: M. Night Shyamalan. Elenco: Bruce Willis, Samuel L. Jackson, Robin Wright .
No cinema, assim como é em qualquer outra área, ao se realizar um grande feito uma bagagem pesada é posta sobre as costas do realizador. Nesta bagagem encontram-se as cobranças e expectativas para o futuro. Shyamalan sentiu bem esse peso após nos presentear, em 1999, com o filmaço "O Sexto Sentido" ao entregar, um ano depois, "Corpo Fechado".
Para o bem e para o mal, Unbreakable apresenta inúmeras semelhanças ao sucesso anterior do cineasta indiano. Entre elas, as mais notáveis são a escalação novamente de Bruce Willis para o papel principal, a fotografia sombria, o ritmo lento, a paranormalidade e, claro, um final surpresa. Portanto seria impossível não comparar as obras entre si.
Willis mais uma vez comprova todo o seu talento em um papel dramático. Sua qualidade e carisma contribuem para que sua atuação seja o ponto mais alto da película. Os aspectos técnicos como a fotografia e tomadas de câmera bem sacadas funcionam novamente de maneira bem satisfatória. E mesmo com o ritmo da história fluindo de maneira lenta, Shyamalan consegue criar uma atmosfera envolvente o suficiente para que o espectador passe bem longe de bocejar. As referências aos heróis de quadrinhos são bem interessantes, assim como os detalhes bem bacanas perceptíveis caso seja apreciado com maior atenção (repare bem no personagem de Samuel L. Jackson e seu apelido).
Os problemas do filme se encontram exatamente em uma das suas estruturas mais elogiadas: no roteiro. O personagem David Dunn (Willis) sai como único sobrevivente (e sem nenhum arranhão) de um acidente de trem e começa a desconfiar, com a ajuda de Elijah (Jackson), que possui algo que o diferencia das outras pessoas. O desenrolar de descobertas posterior a este acontecimento faz emergir uma série de questionamentos na cabeça do espectador, sendo "como ele não percebeu isso antes?" o principal deles. Em outros momentos, o roteiro chega a ser esquemático (a parte em que Dunn cai na piscina foi a que mais me evidenciou isso). O final surpresa é um ótimo tempero para a obra no geral, mas aqui ele não chega a causar um impacto tão forte como foi em "O Sexto Sentido".
Portanto, mesmo com uma ótima atuação de Willis, uma apurada parte técnica, um interessantíssimo argumento e o final surpresa, "Corpo Fechado" se apresenta como uma obra menor (ainda assim muito boa), ainda mais quando posta ao lado de "The Sixth Sense". Essa comparação pode até parecer injusta, mas como disse no começo no texto, acaba sendo inevitável e justamente por isso sua recepção entre os críticos e espectadores foi tida com certa dose de decepção.
03/01/2014
Crítica: O Nevoeiro, de 2007.
Avaliação: ✪✪✪✪✪
Título Original: The Mist
Ano de Produção: 2007
Direção: Frank Darabont
Roteiro adaptado de Stephen King
Elenco: Thomas Jane, Marcia Gay Harden, Laurie Holden, Andre Braugher, Toby Jones.
Se existe algo que sempre questionei em minha vida é sobre a racionalidade humana. Nas aulas de ciências aprendi que o homem é o único animal racional. Cientificamente pode até ser verdade, mas na vida percebemos o quão tal afirmação é enganosa e por isso nunca concordei com meus professores. Se o homem é um ser racional, ou seja, usa a razão, por qual motivo a humanidade precisa de leis para que a convivência em sociedade tente ocorrer da maneira mais civilizada possível? Por qual motivo é tão difícil o homem criar uma personalidade própria, buscando conhecimento muito além do que é vendido pelo governo e pela mídia? Por qual motivo é tão difícil ao homem respeitar às diversidades alheias (étnicas, sexuais, religiosas, etc)?
São por esses questionamentos pessoais que devo ter gostando tanto de "O Nevoeiro". O roteiro adaptado do mestre Stephen King, conhecedor exímio não só do suspense em si, mas também dos instintos e valores humanos, é conduzido por Frank Darabont, este que a transforma em uma obra que mescla entretenimento com conteúdo, ambos com uma ótima qualidade. Não se poderia esperar algo diferente desta união entre Darabont e King que já tinha rendido obras-primas como "Um Sonho de Liberdade" e "À Espera de um Milagre".
- As pessoas são boas. Somos uma sociedade civilizada
- Claro. Contanto que as máquinas funcionem e o 190 atenda. Tire isso, deixe tudo mundo no escuro e assustado e as regras se vão.
Ao confinar pessoas de diferentes credos e ideologias em um supermercado após um nevoeiro misterioso acometer o lugar e sem nenhum meio de comunicação, o filme explora ao máximo a natureza sombria do ser humano. O medo e o encarceramento dessas pessoas servem como metáfora para a própria vida em sociedade. Afinal, saímos de nossas casas com medo de sermos assaltados, assassinados ou de sofremos acidentes, uma vez que o nosso mundo é cercado de mistérios e perigos. Ainda mais com os jornais, rádios e programas de TV contribuindo para aumentar essa sensação de pânico, noticiando sempre violência e mais violência. O mundo em si é um palco de terror. E o mundo é representado no filme pelo tal "nevoeiro".
Após descobrir que nesse nevoeiro estão criaturas alienígenas, o pânico fica ainda maior. O medo da morte faz florescer os mais variados comportamentos naquele grupo de pessoas. Enquanto uns se unem e buscam na confiança ao próximo e na esperança meios de sobreviverem, outros passam a ter atitudes mais monstruosas do que a própria ameaça externa. Um exemplo disto é a religiosa fervorosa Carmody (Marcia Gay Harden, espetacular por sinal, ofusca até mesmo o protagonista de Thomas Jane), que explora o medo das pessoas para aliená-las. Carmody, de uma simples coadjuvante, passa a ser uma autoridade divina para o grupo, ao associar os acontecimentos às passagens bíblicas, convencendo uma grande parte dessas pessoas que tudo aquilo é culpa da perversão humana e que todos estariam pagando caro pelos seus pecados. Conquistando a confiança desse grupo graças às coincidências dos fatos, Carmody passa a ser intocável, comandando julgamentos e decidindo quem deve sofrer punições ou não. (Qualquer semelhança com a vida real não é mera coincidência). Sim, a maioria das pessoas busca a religião por medo do desconhecido e o texto do filme reflete isso brilhantemente.
O mais interessante é que Darabont faz toda essa profunda reflexão ser, ainda, uma obra de entretenimento. O clima de suspense muito bem dirigido pelo diretor nos faz ficar com os olhos pregados na tela e nos sentirmos dentro de todas aquelas situações. Por mais que o roteiro tivesse conteúdo, não seria muito difícil o transformar em algo intragável nas mãos de um diretor qualquer.
Quanto ao desfecho, muitos torceram o nariz, o considerando como desnecessário. Já em minha opinião, não achei apenas fantástico, mas também necessário para a complexidade da obra. Darabont acertou em se manter fiel à obra literária de King, pois dar um final feliz diminuiria e muito o impacto geral do filme. Ao transformar a figura, até então heróica, de Drayton em ruínas, que apesar de toda sua coragem e determinação pela sobrevivência, acaba perdendo suas esperanças juntamente com o combustível do carro que guiava seu grupo, a história ganha um ponto final memorável. É com essa mensagem que nunca podemos perder nossa esperança (esta a qual é abordada como tema principal em suas adaptações anteriores de King), que Darabont fecha seu perturbador e ousado filme de terror, onde o ser mais aterrorizante é o próprio homem e seus medos.
Obs.: Para mim, a parte mais genial e perturbadora do filme é quando um dos militares presentes no supermercado acaba revelando que o governo estudava a existência de seres extraterrestres e que haviam aberto um portal entre a Terra e o mundo desses tais seres, o que acabou gerando tal fenômeno. Nessa altura a fanática Sra. Carmody já tinha “alienado” a grande parte das pessoas e ordenou que o militar fosse punido de acordo com suas interpretações das escritas sagradas, como se ele fosse o único responsável pelo acidente, de acordo com as escrituras sagradas. Com certeza, uma das maiores críticas do fanatismo já abordadas pelo cinema.
26/10/2013
Crítica: Os Suspeitos (2013)
Avaliação: ✪✪✪✪
(Prisoners, 2013, EUA. Direção: Denis Villeneuve. Com Hugh Jackman, Jake Gyllenhaal)
Quando li a sinopse de "Os Suspeitos" confesso que torci o nariz. Motivos não me faltavam: quantos filmes sobre sequestros de filhos já foram feitos? E o quanto tal gênero anda saturado, carente de trabalhos mais profundos?Mesmo assim, pela falta de opções atrativas em cartaz, resolvi comprar o ingresso. E acabou sendo o melhor investimento "cinematográfico" que fiz em 2013. Me surpreendi positivamente durante os 153 minutos da trama.
Grande parte da força do longa fica para a construção dos detalhes técnicos onde o diretor canadense Denis Villeneuve e toda a sua equipe trabalharam com um primor digno dos suspenses policiais de David Fincher (não é atoa que os críticos americanos encontraram semelhanças com "Seven"). Momentos antes de sabermos que as filhas das famílias Dover e Birch desapareceram, a câmera se aproxima lentamente do tronco de uma árvore em frente a casa onde estavam todos comemorando o dia de Ação de Graças. Tal enquadramento já indica que o clima de suspense irá arrematar todos os espectadores. A fotografia fria e o tempo chuvoso e nevoo contribuem ainda mais com o clima de apreensão.
Só esse fato de conseguir envolver o público com a investigação do desaparecimento das crianças já determinam a competência da produção. O foco na parte psicológica dos personagens, conduzida de maneira tangível pelas ótimas interpretações dos atores envolvidos determinam que "Os Suspeitos" seja mais do que competente, mas sim essencial para os apreciadores do gênero.
Hugh Jackman está incrível na pele do protagonista Keller Dover. Seu personagem não é fácil, uma vez que foge do padrão comum: Dover se desespera com toda a situação, mas sua conduta é tão humana e real que o faz passar muito longe de ser o habitual bom moço. Dover busca justiça com suas próprias mãos quando acha que a polícia não será capaz de resolver o caso. Age por instinto, cai na bebida, tem condutas falhas. Apesar de toda a complexidade exigida, Jackman demonstra uma habilidade ótima e em nenhum momento faz seu personagem cair em qualquer esteriótipo. Jake Gyllenhaal tem aqui a sua melhor atuação na pele do Detetive Loki. Assim como o personagem de Dover, seu papel é aprofundado. Loki não é apenas um detetive, ele é humano, tem seus anseios e instintos. Esse aprofundamento em sua parte psicológica também contribui e muito com a qualidade do filme. As atuações coadjuvantes também são fundamentais. Paul Dano na pele de Alex Jones é perturbador, desde a sua primeira aparição. Principal suspeito na concepção de Dover, Jones é um jovem conturbado, calado e misterioso, fatores que jogam todos contra ele.
Outro fator a se destacar é o desenvolvimento da trama. Quando Loki passa a investigar cada suspeito, cada casa, observamos a riqueza de detalhes nos ambientes e em cada pessoa, o que deixa o público ainda mais nervoso e confuso para a resolução do crime.
<b> A partir do parágrafo abaixo, recomendo que leiam apenas os que já assistiram o filme. </b>
Uma das partes mais perturbadoras do filme é quando Loki entra na casa de um dos suspeitos e encontra, em um dos cômodos, várias malas grandes jogadas ao chão. Impossível não ter um ataque de nervos e se colocar na pele do detetive. A cada mala aberta o coração começa a palpitar mais forte. As cobras dentro delas revelam o quão psicótico é o suspeito e junto com toda a ambientação da casa, como os labirintos desenhados por todas as paredes criam um cenário apavorante. Essa parte, pelo menos em minha concepção, é o melhor momento da fita.
Quando Dover captura Jones, quem ele julgou como suspeito, e o passa a torturar, temos uma noção do quanto o diretor foi feliz na realização deste longa. Uma simples atitude foi o suficiente para abrir uma interessante discussão sobre a psicologia e valores do ser humano. Há quem julgou Dover como tão cruel quanto o sequestrador de sua filha e há quem se colocou no lugar do personagem e se viu tendo a mesma atitude e, consequentemente, fazendo uma autoanálise.
A única ressalva fica para uma das cenas do ato final. Quando a filha da família Birch reaparece e é internada no hospital, ao ver Dover na sala, ela o olha desesperada e indaga: "- Foi você que colocou aquelas mordaças na gente!". Ao observar a conclusão da história, essa passagem se torna sem confusa, uma vez que não foi Dover o autor do rapto das meninas. Seria um delírio da menina por estar sedada ou foi apenas uma tentativa de criar mais um nó na cabeça do público? Se a resposta foi a segunda opção, então a intenção do diretor se saiu gratuita e desnecessária.
Mesmo assim, "Os Suspeitos" pode ser considerado uma ótima surpresa em vários aspectos: para quem não esperava mais um grande filme estrear no circuito em 2013, para quem leu a sinopse e não esperava coisa boa (assim como eu) e para quem estava à espera de um suspense policial digno, o que não acontecia há um bom tempo. Mais do que um filme, é uma prova que o cinema pode ser bem melhor quando é rico em detalhes.
Quanto ao diretor Villeneuve, este pode ter um grande futuro. Basta apenas ter boa vontade e não deixar se influenciar pelos cacoetes de Hollywood.
Avaliação: 8.5/10.0
14/01/2013
Crítica: Uma Família em Apuros (2012)
Parental Guidance, 2012 - Direção: Andy Fickman. Com Billy Crystal e Bette Midler.
Avaliação: ✪
Como o próprio título no Brasil sugere, "Uma Família em Apuros" é apenas mais uma comédia clichê hollywoodiana (isso já virou até pleonasmo). Lançado nas férias com a intenção de atrair famílias às salas, o filme é recheado de piadas velhas e sem graças e a história é totalmente previsível. Talvez funcione só com as crianças, e olhe lá. São 104 minutos de agonia (várias pessoas não aguentaram e deixaram a sessão antes do fim) e irritação, pois não dá para acreditar que ainda existam cineastas que continuam apelando sempre à mesma fórmula. O mais triste é que Hollywood deixa transparecer que é essa mesma a sua intenção, principalmente por escalar o novato diretor Andy Fickman, envolvido anteriormente em quatro fracas produções, sendo "Ela é o Cara" a mais "famosa" delas.
O único ponto interessante no longa é a volta de atores que foram consagrados no fim da década de 1980 e início da de 1990, Billy Crystal e Bette Midler, ambos deixados na geladeira desde então. Porém, seus personagens foram escritos de maneira muito superficial, o que acabou não aproveitando todo o talento dos atores. Crystal e Midler interpretam os avós de três netos mimados, que quando os seus pais viajam, os dois são chamados para cuidar dos pestinhas causando o batido choque entre o estilo clássico e moderno de educação. Infelizmente, até o elenco mirim decepciona em suas atuações, sendo irritantes (no mau sentido) a maioria do tempo.
Ao fim de sessão, me bateu uma saudade de comédias infantis do porte dos dois primeiros "Esqueceram de Mim", onde os risos eram bem mais intensos, as situações mais criativas e roteiro mais despretensioso.
Em síntese, o filme foi feito para ser "apreciado" em família e pode até agradar aos menos exigentes, mas como cinema, deixa muito a desejar. Ah... Hollywood e seus cacoetes...
03/01/2013
[CINEMA] Crítica: Possessão (2012)
Avaliação: ✪
The Possession (2012) de Ole Bornedal.
O amadorismo do inexpressivo diretor dinamarquês Ole Bornedal chega a ser risível. Uma grande aula de como não se fazer um filme de suspense e terror.
Desde o grandioso sucesso de "O Exorcismo", de 1973, muitos cineastas vêm bebendo na fonte das possessões demoníacas para conquistar, ou pelo menos tentar, o sucesso nas telonas, não obtendo êxito na maioria das vezes. E o que temos aqui em "Possessão" é apenas mais uma fracassada obra do gênero.
O filme não assusta e nem, ao menos, causa suspense na platéia. Algumas cenas são tão enfadonhas que despertaram até gargalhadas na sala. Além de contar com um roteiro recheado de clichês baratos, tecnicamente o longa também contém diversas falhas. As tomadas de câmera aéreas são desnecessárias e inexplicáveis, a maquiagem é demasiadamente péssima e as atuações beiram a canastrisse de filme B. Por falar em atuações, a única que se salva é a de Jeffrey Dean Morgan (de 'Watchmen - O Filme').
O primeiro ato chega a ter uma narrativa bem interessante, ainda que contenha diversos detalhes bobos. Por mais que na abertura diga que a história é baseada em fatos reais, o decorrer da fita demonstra que essa hipótese é pouco provável. O pai passa de carro com suas duas filhas em frente a uma casa que está vendendo utensílios caseiros, devido a um "incidente" por qual a proprietária passou. A pedido de uma das filhas, o pai estaciona e vai observar os utensílios a venda. A filha mais nova se interessa justamente por uma caixinha de madeira feia, mal sabendo que tal objeto carrega um demônio. E a partir daí, qualquer leigo sabe o que vai acontecer. Até o drama familiar abordado soa como repetitivo, sem profundidade e pouco acrescenta na trama.
O que mais irrita não é nem o fato da história ser batida e previsível, mas sim por conter momentos ingênuos e patéticos. Só para citar um exemplo, quando percebem que existe algo muito estranho com a menina, a mãe a leva para um hospital, onde a mesma passa por uma ressonância magnética. E através deste procedimento é "possível" visualizar o demônio no estômago da menina... E ele ainda faz um charme, abrindo a boca nas imagens de Raio-X fazendo alusão a um grito. A pergunta fica: como um diretor acha que uma patacoada dessa irá causar espanto em quem está assistindo?
Para quem acha que nada pode piorar, é só esperar o último ato. Além de deixar inúmeras interrogações, não oferece sequer um pinguinho de originalidade.
Resumindo, "Possessão" causa mais risos do que medo e serve como mais uma prova que esse gênero do cinema está totalmente saturado, sofrendo pela falta de criatividade ou acomodação dos produtores. Descartável em todos os sentidos.
The Possession (2012) de Ole Bornedal.
O amadorismo do inexpressivo diretor dinamarquês Ole Bornedal chega a ser risível. Uma grande aula de como não se fazer um filme de suspense e terror.
Desde o grandioso sucesso de "O Exorcismo", de 1973, muitos cineastas vêm bebendo na fonte das possessões demoníacas para conquistar, ou pelo menos tentar, o sucesso nas telonas, não obtendo êxito na maioria das vezes. E o que temos aqui em "Possessão" é apenas mais uma fracassada obra do gênero.
O filme não assusta e nem, ao menos, causa suspense na platéia. Algumas cenas são tão enfadonhas que despertaram até gargalhadas na sala. Além de contar com um roteiro recheado de clichês baratos, tecnicamente o longa também contém diversas falhas. As tomadas de câmera aéreas são desnecessárias e inexplicáveis, a maquiagem é demasiadamente péssima e as atuações beiram a canastrisse de filme B. Por falar em atuações, a única que se salva é a de Jeffrey Dean Morgan (de 'Watchmen - O Filme').
O primeiro ato chega a ter uma narrativa bem interessante, ainda que contenha diversos detalhes bobos. Por mais que na abertura diga que a história é baseada em fatos reais, o decorrer da fita demonstra que essa hipótese é pouco provável. O pai passa de carro com suas duas filhas em frente a uma casa que está vendendo utensílios caseiros, devido a um "incidente" por qual a proprietária passou. A pedido de uma das filhas, o pai estaciona e vai observar os utensílios a venda. A filha mais nova se interessa justamente por uma caixinha de madeira feia, mal sabendo que tal objeto carrega um demônio. E a partir daí, qualquer leigo sabe o que vai acontecer. Até o drama familiar abordado soa como repetitivo, sem profundidade e pouco acrescenta na trama.
O que mais irrita não é nem o fato da história ser batida e previsível, mas sim por conter momentos ingênuos e patéticos. Só para citar um exemplo, quando percebem que existe algo muito estranho com a menina, a mãe a leva para um hospital, onde a mesma passa por uma ressonância magnética. E através deste procedimento é "possível" visualizar o demônio no estômago da menina... E ele ainda faz um charme, abrindo a boca nas imagens de Raio-X fazendo alusão a um grito. A pergunta fica: como um diretor acha que uma patacoada dessa irá causar espanto em quem está assistindo?
Para quem acha que nada pode piorar, é só esperar o último ato. Além de deixar inúmeras interrogações, não oferece sequer um pinguinho de originalidade.
Resumindo, "Possessão" causa mais risos do que medo e serve como mais uma prova que esse gênero do cinema está totalmente saturado, sofrendo pela falta de criatividade ou acomodação dos produtores. Descartável em todos os sentidos.
16/12/2012
[CINEMA] Crítica: X-Men 2
Avaliação: ✪✪✪✪
"X2" (EUA, 2003). Direção: Bryan Singer. Com Hugh Jackman, Halle Berry, Famke Janssen, Patrick Stweart, Ian McKellen, Brian Cox.
A luta pela sobrevivência continua...
Se "X-Men - O Filme" já mereceu destaque pelo carisma dos mutantes, pelos ótimos efeitos e pela concisa direção de Bryan Singer, esta segunda aventura consegue ser ainda superior, pois, além de manter ou melhorar todas as qualidades do anterior, é mais movimentada e divertida.
O desenvolvimento dos personagens é mais profundo e o roteiro é bem mais detalhado, ficando ainda mais evidente a metáfora dos mutantes (que representam na vida real, assumidamente, os homossexuais). Aliás, existe um momento onde Bobby vai à casa de seus pais junto de outros mutantes, e sua família acaba descobrindo que o filho é, na verdade, um mutante e não um superdotado. A reação e os diálogos entre os personagens na cena são impagáveis, pois parecia que o "Homem de Gelo" havia assumido que era gay. Esses e outros detalhes deixam bem claro que a intenção dos roteiristas, por de trás da divertida história, é dar uma bela alfinetada na sociedade e governo americanos quanto aos direitos GLBT's.
Ainda dentro do roteiro, existe uma outra observação: Se no antecessor, a história foi construída através de três lados (o do "mal" encabeçado por Magneto, o do "bem" comandado pelo Professor Xavier e o lado "hostil" representado pelos humanos que temem o surgimento de uma nova espécie), em "X2" ela é enriquecida e ganha mais importância. A inserção do personagem William Stryker acaba se encaixando como um quarto lado, uma vez que ele deseja vingança contra Xavier devido a um episódio do passado e aproveita do seu poder político e de seu conhecimento sobre a espécie para colocar em campo um plano que pode aniquilar com todos os mutantes de uma única vez. O personagem também revela detalhes do passado de Wolverine.
Entrando especificamente no mérito das atuações, o elenco continua dando interpretações maravilhosas, se encaixando muito bem nos personagens. O destaque fica para Hugh Jackman, que parece ter nascido para ser o Wolverine e é o mais carismático do longa. Patrick Stewart e Ian McKellen fazem um show a parte, enriquecendo o lado de amizade e rivalidade mútuos entre Charles Xavier e Magneto.
A direção de Bryan Singer é, mais uma vez, consagrada, não só pelo ótimo ritmo e clímax, mas também por dar vida à diálogos envolventes. O cineasta demonstra respeito aos fãs do quadrinho em cada cena construída. Ainda na parte técnica, os efeitos especiais estão em maior quantidade e qualidade. Há momentos incríveis, como a fuga de Magneto da prisão.
O valor da saga "X-Men" é maior do que aparenta ser. Existem temas subentendidos, o tornando muito mais do que uma simples adaptações dos quadrinhos. Os mutantes podem ser comparados com qualquer grupo que já sofreu ou sofrem devido ao preconceito, como judeus, negros, homossexuais... E, além de tudo, diverte como pouquíssimas obras do gênero vem conseguindo ultimamente.
Nota: 8,5/10,0
"X2" (EUA, 2003). Direção: Bryan Singer. Com Hugh Jackman, Halle Berry, Famke Janssen, Patrick Stweart, Ian McKellen, Brian Cox.
A luta pela sobrevivência continua...
Se "X-Men - O Filme" já mereceu destaque pelo carisma dos mutantes, pelos ótimos efeitos e pela concisa direção de Bryan Singer, esta segunda aventura consegue ser ainda superior, pois, além de manter ou melhorar todas as qualidades do anterior, é mais movimentada e divertida.
O desenvolvimento dos personagens é mais profundo e o roteiro é bem mais detalhado, ficando ainda mais evidente a metáfora dos mutantes (que representam na vida real, assumidamente, os homossexuais). Aliás, existe um momento onde Bobby vai à casa de seus pais junto de outros mutantes, e sua família acaba descobrindo que o filho é, na verdade, um mutante e não um superdotado. A reação e os diálogos entre os personagens na cena são impagáveis, pois parecia que o "Homem de Gelo" havia assumido que era gay. Esses e outros detalhes deixam bem claro que a intenção dos roteiristas, por de trás da divertida história, é dar uma bela alfinetada na sociedade e governo americanos quanto aos direitos GLBT's.
Ainda dentro do roteiro, existe uma outra observação: Se no antecessor, a história foi construída através de três lados (o do "mal" encabeçado por Magneto, o do "bem" comandado pelo Professor Xavier e o lado "hostil" representado pelos humanos que temem o surgimento de uma nova espécie), em "X2" ela é enriquecida e ganha mais importância. A inserção do personagem William Stryker acaba se encaixando como um quarto lado, uma vez que ele deseja vingança contra Xavier devido a um episódio do passado e aproveita do seu poder político e de seu conhecimento sobre a espécie para colocar em campo um plano que pode aniquilar com todos os mutantes de uma única vez. O personagem também revela detalhes do passado de Wolverine.
Entrando especificamente no mérito das atuações, o elenco continua dando interpretações maravilhosas, se encaixando muito bem nos personagens. O destaque fica para Hugh Jackman, que parece ter nascido para ser o Wolverine e é o mais carismático do longa. Patrick Stewart e Ian McKellen fazem um show a parte, enriquecendo o lado de amizade e rivalidade mútuos entre Charles Xavier e Magneto.
A direção de Bryan Singer é, mais uma vez, consagrada, não só pelo ótimo ritmo e clímax, mas também por dar vida à diálogos envolventes. O cineasta demonstra respeito aos fãs do quadrinho em cada cena construída. Ainda na parte técnica, os efeitos especiais estão em maior quantidade e qualidade. Há momentos incríveis, como a fuga de Magneto da prisão.
O valor da saga "X-Men" é maior do que aparenta ser. Existem temas subentendidos, o tornando muito mais do que uma simples adaptações dos quadrinhos. Os mutantes podem ser comparados com qualquer grupo que já sofreu ou sofrem devido ao preconceito, como judeus, negros, homossexuais... E, além de tudo, diverte como pouquíssimas obras do gênero vem conseguindo ultimamente.
Nota: 8,5/10,0
[CINEMA] Crítica: X-Men - O Filme
Avaliação: ✪✪✪✪
X-Men, 2000. Diretor: Bryan Singer. Roteiro: Bryan Singer, Tom DeSanto e David Hayter.
Elenco: Hugh Jackman, Halle Berry, Famke Janssen e os ótimos Patrick Stewart e Ian McKelle

"Não é perfeito, mais ainda assim é uma das mais felizes adaptações do quadrinho para as telonas."
O, ainda então, jovem produtor e diretor Bryan Singer teve essa desafiante tarefa de fazer mais uma HQ ganhar as telas de cinema, o que não é nada fácil, hora visto alguns desastres que estamos acostumados (O Demolidor, Hulk, Batman & Robin, Mulher Gato, entre outros).
Singer tinha um currículo pequeno, mas nem por isso subestimável. Uma de suas poucas obras foi o elogiado e premiado "Os Suspeitos", de 1995, totalmente diferente do gênero do qual assumia em "X-Men: O Filme". Apesar de tudo isso, o diretor entregou um trabalho muito bom, conseguindo um grande lucro nas bilheterias e dando a oportunidade dos heróis se tornarem umas das mais rentáveis franquias atuais na sétima arte.
Outro fato que se destaca na obra é o maravilhoso elenco: Hugh Jackman, Halle Berry, Famke Janssen e os ótimos Patrick Stewart e Ian McKellen. Cada ator se encaixa tão bem com seus respectivos personagens que parecem terem sido escolhidos a dedo pelos produtores. Os efeitos especiais também são de deixar o queixo de qualquer um caído. E os grandes responsáveis pelo sucesso do filme são exatamente o carisma dos personagens e a excelente direção de arte.
Quanto ao roteiro, esse é o ponto menos plausível. Apesar de mostrar uma interessante metáfora quanto a luta pela aceitação dos mutantes por parte dos seres humanos "normais", a história demora muito para "pegar no tranco" e, para piorar, o primeiro ato acaba sendo muito forçado. O argumento para que todos os mutantes se encontrassem e se unissem não colou. O início mostra Magneto quando ainda era criança, mas não explora o passado dos demais personagens, o que faz a cena ser totalmente desnecessária. Outro detalhe é: pela rebeldia habitual que conhecemos do personagem Wolverine, o mesmo aceitou fácil demais a integração com o grupo dos mutantes "do bem".
Mas ignorado esses detalhes, podemos apreciar um filme visualmente impecável, eletrizante, divertido e que ainda faz pensar: os mutantes podem representar quais grupos de nossa real sociedade? O quanto ser diferente representa para as pessoas?
Nota: 8,0/10,0
X-Men, 2000. Diretor: Bryan Singer. Roteiro: Bryan Singer, Tom DeSanto e David Hayter.
Elenco: Hugh Jackman, Halle Berry, Famke Janssen e os ótimos Patrick Stewart e Ian McKelle

"Não é perfeito, mais ainda assim é uma das mais felizes adaptações do quadrinho para as telonas."
O, ainda então, jovem produtor e diretor Bryan Singer teve essa desafiante tarefa de fazer mais uma HQ ganhar as telas de cinema, o que não é nada fácil, hora visto alguns desastres que estamos acostumados (O Demolidor, Hulk, Batman & Robin, Mulher Gato, entre outros).
Singer tinha um currículo pequeno, mas nem por isso subestimável. Uma de suas poucas obras foi o elogiado e premiado "Os Suspeitos", de 1995, totalmente diferente do gênero do qual assumia em "X-Men: O Filme". Apesar de tudo isso, o diretor entregou um trabalho muito bom, conseguindo um grande lucro nas bilheterias e dando a oportunidade dos heróis se tornarem umas das mais rentáveis franquias atuais na sétima arte.
Outro fato que se destaca na obra é o maravilhoso elenco: Hugh Jackman, Halle Berry, Famke Janssen e os ótimos Patrick Stewart e Ian McKellen. Cada ator se encaixa tão bem com seus respectivos personagens que parecem terem sido escolhidos a dedo pelos produtores. Os efeitos especiais também são de deixar o queixo de qualquer um caído. E os grandes responsáveis pelo sucesso do filme são exatamente o carisma dos personagens e a excelente direção de arte.
Quanto ao roteiro, esse é o ponto menos plausível. Apesar de mostrar uma interessante metáfora quanto a luta pela aceitação dos mutantes por parte dos seres humanos "normais", a história demora muito para "pegar no tranco" e, para piorar, o primeiro ato acaba sendo muito forçado. O argumento para que todos os mutantes se encontrassem e se unissem não colou. O início mostra Magneto quando ainda era criança, mas não explora o passado dos demais personagens, o que faz a cena ser totalmente desnecessária. Outro detalhe é: pela rebeldia habitual que conhecemos do personagem Wolverine, o mesmo aceitou fácil demais a integração com o grupo dos mutantes "do bem".
Mas ignorado esses detalhes, podemos apreciar um filme visualmente impecável, eletrizante, divertido e que ainda faz pensar: os mutantes podem representar quais grupos de nossa real sociedade? O quanto ser diferente representa para as pessoas?
Nota: 8,0/10,0
15/12/2012
[CINEMA] Crítica: Sobre Meninos e Lobos
Avaliação: ✪✪✪✪✪
Mystic River, 2003.
Origem: EUA
Direção: Clint(ão) Eastwood.
Com: Sean Penn, Tim Robins, Kevin Bacon.
Raríssimos são os cineastas que conseguem transmitir fundamentos humanísticos de uma maneira tão real quanto Clint Eastwood. E podemos dizer que Mystic River é o melhor exemplo disto.
Quanto um trauma sofrido pode influenciar na vida de uma pessoa? Ou melhor, o quanto pode abalar o destino de todas as pessoas envolvidas? Jemmy, Dave e Sean são garotos americanos comuns, de personalidades diferentes. E logo no começo, uma cena é importantíssima para o resto da história: os três estão brincando na rua de basebol e Dave deixa a bola cair num bueiro. Logo após, decidem cada um decide escrever o próprio nome no cimento fresco de uma calçada, dizendo que aquela marca ficaria para sempre. Sean e Jemmy são os primeiros a escrever, mas Dave é interrompido na metade de seu nome quando um carro com dois homens que se passam por detetives da polícia chega no local. Com um tom agressivo, Dave é forçado a entrar no carro e ali começaria o seu maior drama. Na verdade, os dois homens o levaram para um local isolado e o estupraram por durante 4 dias, até conseguir escapar do local. Anos se passaram, os amigos haviam praticamente se separado e cada um dos três formaram suas próprias vidas. Porém, outra tragédia acontece e a vida, ironicamente, reaproxima-os. E é nesse ponto que o clímax inicia. O lado psicológico de cada personagem entra em jogo. Logo, mergulhamos em um mundo cheio de intuições, aparências e vaidades banhados num realismo digno de aplausos.
E é nesse ponto que percebemos que Clint Eastwood não só nos presenteia com um dos melhores dramas do cinema moderno, mas também com uma trama policial de uma competência pouco vista nas telonas. A construção de cada detalhe é feita de maneira minuciosa pelo cineasta e em nenhum momento o ritmo da narrativa cai. Pelo contrário, a história se torna mais interessante a cada minuto passado.
Por mais grandiosa que seja a direção, a cereja desse bolo tem quer creditada ao elenco, simplesmente maravilhoso. Sean Penn, Tim Robbins e Kevin Bacon interpretam com alma seus respectivos personagens a ponto de envolverem totalmente o espectador na história. Em vários momentos, parecia que eu não estava diante de uma obra cinematográfica, mas sim dentro daquelas cenas tamanho o choque de realidade que o filme proporciona. A gente se coloca no lugar de cada um deles e percebemos que as críticas ao comportamento humano é totalmente escancarado por Eastwood.
O ato final de Mystic River é totalmente perturbador e causa agonia. Quando os créditos finais começam a rolar na tela, temos a satisfação de ter apreciado um filme sensacional que funciona perfeitamente como drama, policial e suspense. Obra-prima, sem dúvidas!
Nota: 10,0/10,0
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