16/03/2014

Sambou, lacrou, flopou

Me desculpe se eu ofender alguém, mas essa "bixisse" que tomou conta da comunidade LGBT em assuntos envolvendo música/divas é, no mínimo, uma vergonha alheia. Mais do que isso, uma prova de futilidade e de falta de argumentação.

Li em algum lugar que os homossexuais são, na média, mais inteligentes do que heterossexuais. Observando o comportamento de muitas pessoas do grupo fico com o seguinte paradoxo: ou os heterossexuais são realmente acéfalos ou essa pesquisa aí está com tanta credibilidade quanto pesquisas eleitorais. Ora, se homossexuais fossem mais inteligentes, eles estariam "sambando na cara" dos héteros, comprando livros, assistindo filmes clássicos e promovendo um debate argumentativo sério, tanto na roda "dazamigas" quanto em redes sociais. Mas ao invés de "lacrar" os inimigos no debate, muitos homossexuais acabando "flopando" na hora de demonstrar sua intelectualidade. Prova disso: é só ler e rir com os comentários em redes sociais envolvendo música e divas.

Argumentos bixísticos na hora de defender sua diva:

"-Lacrou o cu das inimigas";

"- Sambou na cara dazinimiga";

Argumentos bixísticos na hora de denegrir a imagem das divas que odeia:

"- Flopada!".

Só se lê isso hoje em dia. 2% dos comentários apresentam realmente uma defesa ou crítica louvável/aceitável de determinado artista. Confesso que, de todos, o termo "FLOPAR" é o que mais me irrita. Ainda mais quando se leva em consideração que o talento de um bom artista nem sempre (ou quase nunca) é refletido através de números, vendas, fãs, ou o que for. Números, no geral, estão relacionados com a comercialidade de determinado evento/artista/trabalho. E isso, a popularidade, não significa qualidade: vide sucessos como "Lepo Lepo", "Assim você me Mata"; "Eguinha Pocotó", entre outros, nacionalmente exemplificando. Prêmios, nem sempre podem ser considerados como parâmetro para comparar artistas diferentes.

"Eu são fã de Lady Gaga. Seu nome foi e continua sendo uma revolução da música POP internacional e o fato dela não se importar em agradar a todos, simplesmente sendo ela mesmo, aumenta ainda mais a minha admiração pela artista que é. Em cada música, álbum ou clipe, Gaga esbanja o seu talento, com sua habitual irreverência. Não tem medo de polêmica e sabe, como poucos, o verdadeiro significado da arte pop."

"Não gosto do trabalho de Britney Spears. Suas músicas de estúdio podem ser bacanas, devido ao uso de recursos técnicos, mas ela não consegue inovar e, muito menos, fazer uma apresentação ao vivo louvável, o que acaba por prejudicar muito o seu talento musical.".

Bom, descrevi os dois argumentos acima. Observe a diferença entre eles e frases rasas como "Lady Gaga samba e Britney flopa".

Sendo muito sensato: Acho uma coisa de retardado ficar fazendo duelinho entre divas em qualquer rede social. Exponha seu argumento, mas não fique lutando, tacando pedra, atirando, se descabelando em briguinhas idiotas. Além de não servir pra porra nenhuma, convenhamos: As divas estão lá ricas e belas, enquanto você está aí brigando por quem sequer sabe de sua existência. Vamos ser fãs, mas não fãs retardados.

Um beijo a todos e até breve.

04/03/2014

A Geração da Inconsequência




Pois é, meus caros leitores... A juventude de hoje está uma merda. E quem escreve isso sou eu, um jovem de 23 anos de idade.

Dá para contar no dedo em meu círculo de conhecidos jovens, aqueles que levam a sério seus empregos e/ou estudos, que utilizam dinheiro e tempo com racionalidade e demonstram apego para com seus familiares e companheiros. Porém, os que são irresponsáveis, que chegam tarde no trabalho, só querem saber de diversão e pegação, além do consumo excessivo de drogas e/ou bebidas e que, ainda por cima, vivem com as contas bancárias no vermelho, aahhh... esses eu perco a conta.

Tudo bem, sabemos que todos nós precisamos de diversão, de uma baladinha ou de uma bebidinha social com nossos amigos. Mas não podemos deixar de lado nossas responsabilidades. Mais do que tudo, precisamos viver em um processo ininterrupto de evolução intelectual. Ou seja, não podemos abdicar de uma boa leitura, de um bom filme, de uma boa música. A arte é essencial na vida de qualquer pessoa. Aquele que esnoba a arte tem fortes tendências de ser um alienado, babaca e irresponsável.

Me chega a dar asco aquela pessoa que não consegue pagar as próprias contas, pois vive metido em festas e baladas em todo o final de semana. E se tiver uma chance de ir no meio da semana, pode crer que eles não perdem. Para piorar, geralmente essa pessoa busca em festas excessivas e prazeres passageiros tentar amenizar suas tristezas e problemas pessoais. É assim que nasce a futilidade (além da inconsequência).

Artistas e intelectuais amenizam seus sentimentos negativos na arte, descrevendo um livro ou uma canção. Ou até mesmo pintando ou assistindo a bons filmes. Babacas, por sua vez, só pensam em se divertir, divertir e divertir.

Você que é jovem ou tem muitos conhecidos jovens: contem quantos tem o hábito da leitura, ou que gostam do cinema clássico ou curtem uma música de qualidade? Posso garantir que os dez dedos de suas mãos serão mais do que suficientes para essa contagem.

Então, Matheus, você afirma que o nível intelectual de uma sociedade está ligada mesmo às manifestações da arte? Sim, afirmo e reafirmo.

Quer um exemplo? Veja na música. Músicas com letras fúteis e sem conteúdo fazem sucesso estrondoso em nosso país, por exemplo. Agora músicas profundas, com letras bem escritas, acabam sendo ofuscadas por tanta futilidade. Há algumas décadas atrás, a juventude acompanhava Legião Urbana, Aborto Elétrico, Cazuza... Hoje, por sua vez, dão Ibope à "Lepo Lepo" ou "Ai se eu te pego"... Reflexo da decadência da educação em nosso país. Reflexo da corrupção de nossa política doente, que se preocupa em dar assistencialismo barato para a população ao invés de investir em projetos não só de ordem econômica, mas sim cultural e educacional. Afinal, é muito fácil dar dinheiro do que educação ao povo, não é mesmo? Povo com dinheiro gasta e movimenta a economia. Povo com educação não elegeria eles. É isso que faz toda diferença.

Vamos observar agora as redes sociais. Você posta uma reflexão ou frase bem elaborada no Facebook. Essa postagem vai ter uma ou outra curtida. Agora veja a postagem daquele cara ou garota que postou foto seminu. Quinhentas curtidas a mais do que sua postagem. E outra pessoa postou:

"Hoje eu vou ferver";

ou

"Tô querendo fazer sexo";


E outra, que adora frases clichês, postou:

"Vem nim mim sextaaaaa!!!"

ou

Frases típicas sobre segunda-feiras.

Ganhou 1000 curtidas!

Poxa, Matheus! Você é bem careta, hein?!

Não, lógico que não. Eu não veria nenhum problema de uma pessoa postar ou curtir frases clichês sobre sextas ou segundas-feiras, desde que valorizasse, também, postagens reflexivas, sérias, interessantes...

Outro detalhe crucial é a tecnologia. Esta poderia servir para interligar mais os jovens, ou as pessoas em geral mesmo, com a arte, com a educação. Mais uma vez INFELIZMENTE, o efeito foi contrário. E bem contrário. Os jovens não utilizam a Internet, em momento algum, para algo verdadeiramente produtivo. E a chegada desses celulares modernos e tablets então, piorou mais ainda. Os jovens não desgrudam os olhos das telas de seus equipamentos, ignorando trabalho e estudo e ainda esquecem que sua vida está passando rápida, sem produtividade alguma, apenas com futilidades que nada agregarão em valores.

Para concluir o meu pensamento, vou utilizar a minha filosofia de vida, a qual julgo a ideal: a filosofia do equilíbrio, que poucos usam. Alimentação, estudo, trabalho, diversão... tudo deveria ser equilibrado na vida de todos. Mas essa geração "I" (de Inconsequente), cada vez deixa o futuro de nossa sociedade mais preocupante.

O que comer, já que tudo faz mal?

Ouvimos, praticamente, todos os dias que algum alimento faz muito mal à saúde. Às vezes, as próprias fontes de informação entram em contradições a respeito de determinados alimentos: uns dizem que alimento X faz muito mal, outros dizem que não faz mal e é até bom para a saúde.

Agora, como se localizar no meio de tantas informações? Baniremos refrigerantes, fast food, conservados, embutidos, etc. de nossas dietas?

Bom, eu não entendo quase nada de medicina ou nutrição, mas posso vir falar com intuição e um pouco de lógica: assim como em tudo na vida, o segredo de uma boa alimentação está no equilíbrio.

Comer só porcariada (como hambúrgueres, pizzas, salgadinhos, etc) pode ser tão prejudicial quanto só comer salada e legumes. Temos que ter ciência que nosso organismo precisa de todos os nutrientes que existem (não vou me aprofundar nisso, até porque temos vários sites que falam exclusivamente disso). Temos que ter ciência também que não podemos comer embutidos, gorduras e conservados com muita frequência. 

Assim, podemos tranquilamente comer aquele rodízio de pizza no final de semana, sem peso na consciência, se nos demais dias da semana a gente ingerir uma alimentação bem equilibrada, com arroz, feijão, verduras, legumes, carne branca e vermelha, frutas, entre outros. Um erro que vejo em programas de TV, rádio ou até mesmo em matérias na Internet é que, quase sempre, eles usam os termos "não comam" ou "faz mal", ao invés de "evitar" ou "equilibrar". Está certo que quase ninguém obedece a essas matérias, mas mesmo sim eu me irrito profundamente com a forma na qual esse tipo de coisa é abordada pela mídia. Se uma pessoa fosse seguir à risca o que dizem, iria viver na dieta da água.


13/02/2014

Medidas superficiais, de uma política superficial e de uma sociedade superficial.

REDUÇÃO DA MAIORIDADE PENAL

Ilusão é a doença que acomete muitos cidadãos em nossa sociedade. Para muitos, a resolução de problemas, tal como a violência, vem apenas de projetos reacionários como o da redução da maioridade penal ou da legalização do uso de armas pela população. Digo ilusão, pois pensar assim é uma jogada superficial de mais, como se fosse a saída mais fácil para o problema da violência, que é muito maior do que qualquer um pode imaginar.

O mal tem que ser cortado pela raiz. Esse ditado é um dos poucos que concordo. De onde vem tanta violência? Da política. A desigualdade social, provocada por interesses de uma minoria rica e monopolizadora, somada ao descaso da educação pública, formam a "base" da crescente onda de violência em que vivemos. Para chegar à tal conclusão não é preciso ser muito inteligente.

Agora vamos mais afundo.

O Código Penal brasileiro é uma grande piada, e de mau gosto por sinal. As penas são brandas. Marginais que cometem crimes graves, em pouco tempo estão soltos e, na maioria das vezes, continuam cometendo crimes. O sistema penitenciário, por sua vez, é um verdadeiro caos. Sem condições humanas, superlotadas e comandadas pelo descaso, as cadeias brasileiras, ao invés de "reformar" o bandido, acaba o tornando ainda pior. Em situações extremas, qualquer pingo de humanidade que exista numa pessoa acaba se perdendo. Então vamos lembrar que esses mesmos marginalizados estarão em pouco tempo às soltas, fazendo mais vítimas.

Então... Do que adiantaria uma redução da maioridade penal, se medidas como a reforma da Constituição, mais precisamente do Código Penal, o investimento em educação de qualidade, o combate ao Capitalismo sem freios e melhorias no sistema carcerário e até mesmo uma maior qualificação da Polícia e dos agentes carcerários, não forem tomadas antes? Não adianta querer colocar a carroça na frente do burro.

REVOGAÇÃO DO ESTATUTO DO DESARMAMENTO

Outra válvula de escape de fácil adesão popular. "Afinal, se bandido tem arma, o cidadão de bem também tem de ter."

Até que ponto estaremos seguros com uma sociedade armada? Mesmo a posse de armas sendo difícil e burocrática, estamos cansados de ver "cidadãos de bem" usando armas de fogos em brigas de trânsito, em discussão de bares, familiares e até mesmo escolares. A natureza humana é deveras complexa. O instinto do homem, muitas vezes é fatal.
Imagine uma facilidade ao porte de armas de fogo. Além de tudo que já foi mencionado, vejamos os justiceiros agindo por intuição, atirando em um aparente culpado, sem ter provas. Pessoas morrendo por causa de crimes que não cometeram... Ou a arma incentivando o cidadão de bem a reagir à assaltos, e este acabar sendo morto primeiro pelo marginal. E por aí vai.
Porém,  os defensores do armamento civil, só conseguem idealizar os "cidadãos de bem" atirando em bandidos malvados que os roubam e ameaçam suas vidas.

Então, Matheus, o que faremos para acabar com a violência?
Bom, não é com medidas superficiais, lançadas por políticos sedentos por votos e status que manjam do que causa apelo popular, que iremos dar mais segurança ao país.
É através do voto e de manifestações é que podemos começar com uma reforma política em nosso país. Ler bons livros, ter acesso às artes em geral, discutir ideias, tudo que colabore com a evolução intelectual, para se aprender a ter uma noção crítica melhor. Como disse no começo do texto, o mal se corta pela raiz. E esse "mal", somos nós, a população. Vamos sentir melhor a sociedade, entender as diversidades, ter respeito ao próximo. Vamos nos interessar pra valer em política.

09/02/2014

A hipocrisia jornalística do Brasil

É muito fácil bater e amarrar em um poste um morador de rua drogado. É muito fácil para um jornalista ou para própria população apoiar esse tipo de atitude.

Defende bandido? Por que não leva para a casa?



Mas uma pergunta básica: por que não fazem o mesmo com os políticos corruptos, que contribuem para todo esse cenário de aumento de violência, decadência de educação e saúde pública? E tem mais: duvido muito que se acontecesse de lincharem um político corrupto, algum jornalista iria defender tal postura. Não que eu defenda qualquer tipo de violência, pelo contrário, só estou comparando ideologias e invertendo os personagens,  promovendo o debate sobre outro ponto de vista.
"É compreensível que um povo que ande de saco cheio com a política desse país passe a ter tais atitudes..."

Será que ouviríamos ou leríamos isso de algum órgão da mídia?

Outra pergunta: Por qual motivo, o povo que defende tais "justiceiros", não toma atitudes efetivas, em manter manifestações contínuas para mudança da nossa política e Constituição? Por qual motivo os mesmos não fazem valer seus votos?

A resposta é certa: realmente é muito mais fácil bater num marginal qualquer.

Hipocrisia? Não, deve ser apenas liberdade de expressão. Vai entender, né?


Obs.: Só para reforçar, antes que me chamem de esquerdista revolucionário, que faz apologia à violência: NÃO APOIO QUALQUER FORMA DE VIOLÊNCIA. NÃO DESEJO QUE SAIAM BATENDO EM POLÍTICOS OU EM QUALQUER OUTRA PESSOA. A MUDANÇA ESTÁ NA INTELIGÊNCIA, NAS MANIFESTAÇÕES E NA HORA DO VOTO.

01/02/2014

O primeiro beijo gay na Globo

O último capítulo de "Amor à Vida", que foi ao ar na sexta-feira 31/01, foi um marco para a Globo e tal do tabu do beijo gay.



Na verdade, não sei ao certo o que levou a emissora enrolar tanto para exibir um simples beijo. Se era medo de ser criticada por preconceituosos ou simplesmente era para conseguir um pico de audiência, o que importa é que finalmente aconteceu. Não foi lá aquele beijaço, mas tal selinho já indica o começo da "Revolução Global", e foi muito importante para a comunidade LGBT.

Em contrapartida, não preciso nem pesquisar ou ir afundo para saber que líderes religiosos fundamentalistas e outras correntes religiosas já estão se manifestando negativamente para com tal cena. Os defensores da "moralidade e dos bons costumes" já arrumaram um prato cheio para destilar suas opiniões recheadas de ódio e preconceito.

O que eu não entendo é essa preocupação excessiva com os homossexuais, como se eles fossem a grande ameaça da sociedade. Assuntos viáveis como corrupção, política, segurança, saúde, educação e respeito não ganham tanto destaque como a amor entre duas pessoas do mesmo sexo ganha. Isso é, no mínimo, hipócrita. Quando o amor choca mais do que a perda de uma pessoa provocada pela violência, ou do que o descaso da saúde e educação pública, é sinal que os valores estão, de fato, invertidos.

A alienação religiosa é tão grande, que os muitos religiosos abrem mão do amor ao próximo. Ignoram o princípio de liberdade do ser humano, de que cada um é livre para seguir a religião/doutrina que quiser, e, se a sexualidade fosse escolha, ter a sexualidade que quiser. É inútil utilizar nossas ideologias religiosas para julgar ao outro.

E antes de dizer "Eu tenho o direito de ser contra a homossexualidade", estude, pesquise sobre o assunto. Não fique só na teoria "Deus fez homem e mulher...", busque entender cientificamente a homossexualidade. Converse com homossexuais. Não podemos criticar aquilo que não conhecemos. E esses discursos preconceituosos de "homens da fé" não são conhecimento algum. Como a própria palavra diz, são pré-conceitos.

Voltando à novela, tenho de parabenizar o autor Walcyr Carrasco, não só pela coragem, mas também pelo ótimo capítulo final. Apesar da novela como um todo, ter sido fraca, cheia de incoerências e furos de roteiros, o final foi belíssimo e emocionante. Carrasco acertou em cheio ao fazer a conclusão que o público queria, bem à moda novelão. (Confesso que não ando vendo novelas, assisti os 3 primeiros meses de "Amor à Vida", mas depois só voltei a ver na última semana, pois ficou praticamente indigerível ver as forçadas de barra e situações insuportáveis). Ressalvo a cena da morte de Aline, que foi caricata ao extremo.

Como homossexual, foi muito importante e tocante para mim, ver o beijo gay entre Niko e Félix. Mais importante ainda, foi ver que o amor e o sofrimento juntos venceram o preconceito que o pai tinha pelo seu filho gay. Uma linda redenção. Um final que ficará marcado pela história.

03/01/2014

Crítica: O Nevoeiro, de 2007.

                       
Avaliação: ✪✪✪✪
Título Original: The Mist
Ano de Produção: 2007
Direção: Frank Darabont
Roteiro adaptado de Stephen King
Elenco: Thomas Jane, Marcia Gay Harden, Laurie Holden, Andre Braugher, Toby Jones.


Se existe algo que sempre questionei em minha vida é sobre a racionalidade humana. Nas aulas de ciências aprendi que o homem é o único animal racional. Cientificamente pode até ser verdade, mas na vida percebemos o quão tal afirmação é enganosa e por isso nunca concordei com meus professores. Se o homem é um ser racional, ou seja, usa a razão, por qual motivo a humanidade precisa de leis para que a convivência em sociedade tente ocorrer da maneira mais civilizada possível? Por qual motivo é tão difícil o homem criar uma personalidade própria, buscando conhecimento muito além do que é vendido pelo governo e pela mídia? Por qual motivo é tão difícil ao homem respeitar às diversidades alheias (étnicas, sexuais, religiosas, etc)?

São por esses questionamentos pessoais que devo ter gostando tanto de "O Nevoeiro". O roteiro adaptado do mestre Stephen King, conhecedor exímio não só do suspense em si, mas também dos instintos e valores humanos, é conduzido por Frank Darabont, este que a transforma em uma obra que mescla entretenimento com conteúdo, ambos com uma ótima qualidade. Não se poderia esperar algo diferente desta união entre Darabont e King que já tinha rendido obras-primas como "Um Sonho de Liberdade" e "À Espera de um Milagre".

- As pessoas são boas. Somos uma sociedade civilizada
- Claro. Contanto que as máquinas funcionem e o 190 atenda. Tire isso, deixe tudo mundo no escuro e assustado e as regras se vão. 

Ao confinar pessoas de diferentes credos e ideologias em um supermercado após um nevoeiro misterioso acometer o lugar e sem nenhum meio de comunicação, o filme explora ao máximo a natureza sombria do ser humano. O medo e o encarceramento dessas pessoas servem como metáfora para a própria vida em sociedade. Afinal, saímos de nossas casas com medo de sermos assaltados, assassinados ou de sofremos acidentes, uma vez que o nosso mundo é cercado de mistérios e perigos. Ainda mais com os jornais, rádios e programas de TV contribuindo para aumentar essa sensação de pânico, noticiando sempre violência e mais violência. O mundo em si é um palco de terror. E o mundo é representado no filme pelo tal "nevoeiro".

Após descobrir que nesse nevoeiro estão criaturas alienígenas, o pânico fica ainda maior. O medo da morte faz florescer os mais variados comportamentos naquele grupo de pessoas. Enquanto uns se unem e buscam na confiança ao próximo e na esperança meios de sobreviverem, outros passam a ter atitudes mais monstruosas do que a própria ameaça externa. Um exemplo disto é a religiosa fervorosa Carmody (Marcia Gay Harden, espetacular por sinal, ofusca até mesmo o protagonista de Thomas Jane), que explora o medo das pessoas para aliená-las. Carmody, de uma simples coadjuvante, passa a ser uma autoridade divina para o grupo, ao associar os acontecimentos às passagens bíblicas, convencendo uma grande parte dessas pessoas que tudo aquilo é culpa da perversão humana e que todos estariam pagando caro pelos seus pecados. Conquistando a confiança desse grupo graças às coincidências dos fatos, Carmody passa a ser intocável, comandando julgamentos e decidindo quem deve sofrer punições ou não. (Qualquer semelhança com a vida real não é mera coincidência). Sim, a maioria das pessoas busca a religião por medo do desconhecido e o texto do filme reflete isso brilhantemente.
O mais interessante é que Darabont faz toda essa profunda reflexão ser, ainda, uma obra de entretenimento. O clima de suspense muito bem dirigido pelo diretor nos faz ficar com os olhos pregados na tela e nos sentirmos dentro de todas aquelas situações. Por mais que o roteiro tivesse conteúdo, não seria muito difícil o transformar em algo intragável nas mãos de um diretor qualquer.

Quanto ao desfecho, muitos torceram o nariz, o considerando como desnecessário. Já em minha opinião, não achei apenas fantástico, mas também necessário para a complexidade da obra. Darabont acertou em se manter fiel à obra literária de King, pois dar um final feliz diminuiria e muito o impacto geral do filme. Ao transformar a figura, até então heróica, de Drayton em ruínas, que apesar de toda sua coragem e determinação pela sobrevivência, acaba perdendo suas esperanças juntamente com o combustível do carro que guiava seu grupo, a história ganha um ponto final memorável. É com essa mensagem que nunca podemos perder nossa esperança (esta a qual é abordada como tema principal em suas adaptações anteriores de King), que Darabont fecha seu perturbador e ousado filme de terror, onde o ser mais aterrorizante é o próprio homem e seus medos.

Obs.: Para mim, a parte mais genial e perturbadora do filme é quando um dos militares presentes no supermercado acaba revelando que o governo estudava a existência de seres extraterrestres e que haviam aberto um portal entre a Terra e o mundo desses tais seres, o que acabou gerando tal fenômeno. Nessa altura a fanática Sra. Carmody já tinha “alienado” a grande parte das pessoas e ordenou que o militar fosse punido de acordo com suas interpretações das escritas sagradas, como se ele fosse o único responsável pelo acidente, de acordo com as escrituras sagradas. Com certeza, uma das maiores críticas do fanatismo já abordadas pelo cinema.