30/10/2014

Sejam bem-vindos à Monalândia! [AS CRÔNICAS DE MONALÂNDIA - PARTE 1]

15 de Janeiro de 2130.

Monalândia é uma terra feliz. Foi o primeiro país LGBT do globo.

Monalândia foi fundada em 2014 com base na ideia de um vereador de um país chamado Brasil. A nação se desenvolveu numa ilha isolada do Oceano Atlântico. Doze casais gays e doze casais lésbicos foram enviados para lá para que a experiência proposta pelo vereador fosse aplicada.

A experiência era simples: consistia em isolar "pares" (pois segundo ele casal era só entre macho e fêmea) homossexuais na remota ilha e voltar depois de 80 anos. Segundo a teoria do vereador, não iria existir mais ninguém vivo. Um famoso filósofo da época tinha dito: "Aparelho excretor não reproduz!" e o idealizador da experiência acreditava fielmente nesse grande pensador do século XXI.

"Eu não estarei vivo quando a experiência chegar ao seu fim, mas o que importa é que o mundo terá a comprovação que GAYS não conseguem procriar e darem continuidade para a raça humana!". Tal frase dita pelo vereador na época aparece no vídeo mais acessado pelo HomoTube, "A Experiência da raça Hetero mais fracassada da História!".

O maior erro do vereador e que colaborou diretamente para o fracasso da experiência foi subestimar a inteligência dos homossexuais enviados para a ilha.

Ao chegar na ilha, os 48 homossexuais começaram a traçar um plano de sobrevivência.

Dos 24 gays, 20 eram graduados e das 24 lésbicas, 21. Haviam 5 formados em Engenharia Civil , 10 em Medicina, 4 em Veterinária, 4 também em Administração, 8 em Arquitetura, 3 em Química etc... A ilha fornecia frutas, riachos, uma grande variação de rochas, de árvores... Não demorou muito para aquele pequeno grupo LGBT traçar estratégias explorando toda aquela vasta paisagem. Passados quatro anos todos os casais já possuíam suas respectivas casas, formando o que deram o nome de Vila Santa Gaga. E que casas luxuosas eram aquelas! A força da união daquelas gays primatas e inteligentes foi algo magnífico. Quando adoeciam, os formados em medicina davam conta do recado em suas respectivas residências. Auxiliados pelos químicos e botânicos não demoraram para desenvolver uma gama de medicações, naturais ou não, de eficiência até maior do que os que eram desenvolvidos pelos héteros no restante no mundo. Como os homossexuais formados em medicina eram um tanto amargos, não se tardou para que se cansassem de bancar os anfitriões dos enfermos e se reuniram para construção do Saint Wyllys, o primeiro hospital de Monalândia.

Todavia, o momento mais importante da história de nosso país foi exatamente o que fuzilou a experiência do vereador: os casais, ao se sentirem solitários em seus devidos lares, começaram a desejar por filhos. A frase proferida pelo grande pensador martelavam na cabeça deles. "Órgão excretor não reproduz!" Mas havia uma esperança: os formados em medicina! E foram as 6 lésbicas e os 4 gays médicos que aplicaram o método de fertilização in Vitro. Todos os gays e lésbicas concordaram da doação de seus materiais reprodutivos. Os materiais não eram identificados para não ocorrer nenhum tipo de problema. A maioria das lésbicas também não viram problema em serem barrigas solidárias para os casais gays. 

Com o passar dos anos, a população de Monalândia foi crescendo, o que fez o vereador, que monitorava tudo por satélite, se suicidar devido o peso de fracasso e outros homossexuais e simpatizantes espalhados pelo mundo doarem tudo o que era possível para a população daquela nova nação.


E assim foi até que Monalândia se tornou um país como qualquer outra do primeiro mundo. Foram usados apenas 15 anos para que se tivessem casas, prédios, comércios, hospitais, carros...

Ah claro, surgiram organizações políticas, moeda, etc....

[Algo que ciência não explicou até hoje é que 90% dos que nascem em Monalândia, desde sua origem, são homossexuais. Uma lenda local diz se tratar de uma maldição jogada por um líder religioso brasileiro que sempre dizia em sua época: "filhos que são criados por gays, se tornam gays!". Assim, os heterossexuais eram minoria na Ilha, mas não deixavam de receber amor dos seus pais.]


País: Monalândia
População: 9.223.678 (segundo o IPBey - Instituto de Pesquisas Bey)
IDH: o mais elevado do mundo
Moeda: Gaga
Língua: Português e francês
Governo: Monarquia anarquista liberalíssima
Atual trono: Rei Kaio e Rei Thiago.
Série Clássica mais assistida: Glee, empatado com GoT.

Bandeira do país



Moeda oficial 


Agora que vocês conheceram Monalândia aguardem os próximos capítulos que contarão não só as maravilhas, mas também os problemas presentes em qualquer outra nação.


29/10/2014

Reféns do Bolsa Família?



- Bolsa Família virou uma espécie de voto de cabresto.

- Como assim? Me explique melhor.

- Quem é beneficiário do Bolsa Família se tornou refém do Governo que a criou. Li uma frase interessante no face sobre isso: "Se os porcos pudessem votar, o homem com o balde de comida seria eleito sempre, não importa quantos porcos ele já tenha abatido no recinto ao lado.".

- Mas você não deixa de ser um refém, também...

- Como? Não sou bolsist....

- Refém do Sistema, oras. Você trabalha seis dias por semana, tem que acordar cedinho para cumprir seu expediente de 10 horas diárias, que na verdade se transformam em 13 horas devido ao trânsito caótico, sofre pressão desumana de seus superiores para produzir e dar lucro para a empresa e no final do mês recebe um salário de mil reais. Sem falar que boa parte desse dinheiro é comido por impostos. Sim, você trabalha 5 meses por ano só para pagar impostos! E você aceita isso.

- Claro que sim! Desde quando ser trabalhador é motivo de vergonha? Pelo contrário, o trabalho edifica o homem!

- Talvez digas isso pelo fato de morar com seus pais e não ter despesa como aluguel ou parcela de financiamento, conta de água, luz, internet, telefone, gás, compra do mês... Com mil reais não se faz nada. Pense: você se mata para trabalhar e assim como a maioria dos brasileiros ganha um salário irrisório.

- Mas pra isso tem a meritocracia, cara! Vou crescer e vou ter o reconhecimento merecido.

- Sua postura até que está certa nesse ponto, mas você realmente crê em meritocracia?

- Também agrado meus superiores...

- Puxa o saco!

- É... quase isso.

- Então você está indiretamente assumindo que a meritocracia é uma farsa, pois é necessário bajular para crescer. Além disso, ao tomar tal atitude você acaba sendo injusto com um colega de trabalho que supostamente pode estar exercendo melhor o trabalho, ou seja, o verdadeiro merecedor.

- Larga a mão de ser petralha rapaz! Então seu discurso prova que o atual governo é péssimo.

- Os problemas do Brasil vêm de séculos, amigo. Heranças malditas da História, antiga ou recente, não se podem apagar de uma hora para outra. O atual Governo não é mágico para isso. Mesmo tendo diversas críticas contra a atual gestão reconheço os acertos dele. O Brasil vem evoluindo no combate às desigualdades sociais e recentemente saiu do mapa da fome. Isso se deve muito ao Bolsa Família.

- Bolsa Esmola, Bolsa Vagabundo.

- Não seja tão pequeno. Quem sustenta a vida de um filho com menos de cem reais por mês?

- Tem gente com um montão de filhos...

- O benefício máximo por família é de duzentos e trinta reais. Você ainda não percebeu que as marionetes são, na verdade, as pessoas como você? Aceitam ser "peões" para garantir uma mão de obra barata para as empresas, defendem que a polícia tem que reprimir com violência as manifestações que clamam por uma sociedade mais questionadora, intelectual e politizada, gritam que bandido bom é bandido morto, lutam contra o socialismo sem sequer saber sobre ele... Talvez sejas ingênuo demais a ponto de não perceber que é exatamente assim que os capitalistas, políticos pró-capital e até mesma uma grande parte da mídia quer que a gente pense e haja: para benefício deles próprios!

- Vá morar em Cuba!

Sorria, você está sendo caluniado!

Tutorial de como se criar uma calúnia:

1. Pense em alguém que você queira caluniar;

2. Pegue uma foto desse alguém;

3. Abra um editor de imagens;

4. Invente uma frase jamais dita por esse alguém e coloque-a entre aspas na foto da vítima. De preferência, logo abaixo da frase insira o nome completo da pessoa para não restar dúvidas;

5. Compartilhe na internet. 95% das pessoas acreditarão.


Infelizmente o tutorial acima funciona. A quantidade de calúnias que se espalham pelas redes sociais hoje em dia é assustadora. Mais assustador ainda é observar o número de pessoas que acreditam nessas mentiras e colaboram ainda mais para a viralização das mesmas.

O bom senso nos obriga a pesquisar fontes confiáveis antes de acreditar em qualquer fato exposto na web. A internet é uma ferramenta excelente para compartilhamento de informação e conhecimento, mas é também espaço para muitas mentiras e mal feitos. Apesar dessa mesma internet oferecer a facilidade de investigação e apuração, boa parte dos internautas não sabem ou  não fazem questão de desfrutá-la.

A tendência de uma pessoa acreditar numa calúnia é maior quando o alvo é alguém que ela deteste. A raiva faz o subconsciente da pessoa acreditar numa falácia sem qualquer questionamento.

Outro fator ligado a isso é o da manipulação sensacionalista da mídia, onde pessoas tiram suas conclusões com base apenas em manchetes sem sequer se preocuparem em fazer a leitura das matérias por completo. Esses dias, por exemplo, me deparei com uma notícia em um portal no Facebook que se intitulava "Foi descoberto que ambulâncias da prefeitura de SP eram utilizadas por chefes do PCC". Ao abrir a reportagem, li que o ocorrido foi entre os anos de 2004 e 2007. Porém a ausência da data na manchete aliada com a preguiça da leitura de muitos internautas renderam comentários de protestos contra o atual prefeito, Fernando Haddad.

Quando se tem uma sociedade composta por grande número de analfabetos funcionais fica fácil disseminar mentiras. A internet, ao reunir milhões  que se enquadram neste perfil, se tornou um prato cheio para pessoas de má índole e um meio a mais de manipulação de massa.


A própria CBN divulgou uma nota repudiando essa calúnia contra o Dep Jean Wyllys. O mais triste é que mesmo assim até hoje essa mentira é compartilhada e levada a sério por milhares de pessoas.

Arnaldo Jabor nunca disse essa frase. O próprio jornalista desmentiu essa e outras falácias em uma publicação.






26/10/2014

Aos que falam mal do Nordeste: Se olhem para o espelho e sintam-se envergonhados!

Como já esperado a vitória de Dilma nas urnas culminou em infinitas publicações odiosas contra o povo nordestino nas redes sociais.

Eu, como paulista, vou dar um recadinho para vocês:

Sintam-se envergonhados ao se olharem no espelho. Nordestino não é um povo burro, mas sim um povo bravo, forte e guerreiro. Se nós, aqui do Sudeste reclamamos com uma seca de meses, os nordestinos sofrem com esse problema há décadas. Sabem essas milhões de vagas de emprego que se tem aqui mais embaixo no mapa? Pois é, lá a situação é bem diferente. Sabe a fome e a miséria? Lá o número de vítimas é bem maior do que aqui. Enquanto vocês despejam seus discursos xenofóbicos e odiosos fazendo o uso da internet e aparelhos eletrônicas, saibam que tem muito nordestino que nem rede elétrica ainda possuem em suas residências. Enquanto vocês que matavam ou matam aulas por motivos fúteis, saibam que milhares de crianças nordestinas ainda não possuem sequer acesso à escola.

A condição de vida dos nordestinos, felizmente, melhorou e muito nos últimos anos, mas a Região ainda carrega o pior IDH do Brasil. Tudo isso foi um reflexo do descaso que outros governos tiveram com o Nordeste ao preferirem polarizar suas principais propostas nas regiões mais burguesas e populosas do país. Esse esquecimento foi extinto quando o PT assumiu o Brasil e olhou a região mais carente de nossa nação com melhores olhos. O Bolsa Família, que vocês apelidaram de Bolsa Esmola ou Bolsa Vagabundagem, foi só uma das benfeitorias do governo petista ao Nordeste. Não vou entrar no mérito aqui, mas se quiserem deem uma breve pesquisada na Internet para acompanhar as outras políticas que beneficiaram a região.

Aliás, criticar o Bolsa Família é de uma ignorância e maldade terríveis. Achar que uma família se tornará vagabunda por receber R$77,00 mensais é o cúmulo da falta de raciocínio e de bondade para com quem mais precisa. Quem sustenta uma família com esse valor? Não dá nem para debater sobre esse assunto com ninguém... E o que mais me irrita é ver cristão criticando essa pequena ajuda do Governo aos mais carentes. Cadê a coerência? Cadê a compaixão? Muitos doam dinheiros às igrejas sem ter certeza para que fins esse dinheiro será utilizado (na maioria das vezes só enriquecem os mercadores da fé mesmo) e se curvam aos que mais precisam. Muitos carregam um livro sagrado embaixo dos braços, mas ignoram ao passarem por um faminto jogado na rua. É triste ver tamanha hipocrisia, ignorância, maldade e preconceito que um ser humano é capaz de carregar.

Só para concluir: vivemos num país democrático e o Nordestinos continuarão tendo peso nas eleições e suas opiniões e convicções merecem todo o respeito. Se eles são fiéis ao PT é devido o fato de nunca terem a atenção merecida de outros governos.

Posso ter inúmeras críticas ao PT, mas como todo bom cidadão deveria ser reconheço suas qualidades e benfeitorias que ajudaram e muito não só o Nordeste, mas sim todo o Brasil nestes últimos anos. Vamos deixar nossa ignorância e arrogância de lado e vamos enxergar a beleza dos nordestinos, de sua cultura, de seus inúmeros talentos revelados e, principalmente, de sua bravura ao enfrentar obstáculos sociais terríveis. Acima de tudo: vamos ser mais humanos!


24/10/2014

[Crônica] O Homem Que Amava as Coisas

Roberto abriu a porta da sala que dá acesso ao abrigo e correu abraçar seu carro:

- Não vou deixar que ninguém faça um risquinho sequer em você, amor!

"Smack, Smack"

É um hábito dele dar dois beijos no carango antes de começar a guiá-lo.

Parado no semáforo, Roberto sacou seu smartphone e o trouxe até seu peito, apertando com força.

- O que eu seria sem você, parceiro?

"Smack, Smack"

Sim, os dois beijos também é um ritual que nosso amigo leva a sério para todos os seus amores.

Chegando ao serviço se deslocou até a cozinha e apertou o polegar da copeira. Dois minutos depois uma bela xícara de café fora entregue nas mãos de Roberto.

Chegando ao seu escritório, girou a orelha de sua auxiliar. Logo depois ela começou a emitir os relatórios que ele precisava.

Terminado o expediente, Roberto lembrou que era dia de fazer visita à mãe. 

"Smack, Smack"

Deu partida novamente eu seu grande amor e dirigiu até chegar no apartamento de sua velha senhora. Apertou a campainha e a porta se abriu. Roberto encarou sua mãe e foi direto ao sofá.

- Poxa! Esse sofá é uma maravilha. . . Valeu a pena cada centavo investido nele.

"Toc, Toc"

A senhora sabia que duas batidas no braço do sofá era sinal que Roberto estava faminto. 

Enquanto a mãe caminhava a cozinha, Roberto tirou seu smartphone do bolso.

"Smack, Smack"

- Sinto muito, companheiro. Lançaram um modelo novo e serei obrigado a trocá-lo. Meu coração está apertado por isso, mas você achará alguém que irá lhe tratar com o mesmo amor e carinho que sempre ofereci para ti...

Depois de dois minutos, a velha senhora apareceu com um lanche e um refrigerante.

- Esse lanche está com gosto estranho. A senhora ficou desregulada, hein? Acho que precisa passar um óleo em suas mãos. Quem sabe não volte a funcionar.

Não demorou muito para que Roberto voltasse ao seu carro.

"Smack, Smack"

Chegando em casa, dirigiu-se até sua televisão de 50 polegadas que havia adquirido há poucos dias.

"Smack, Smack"

- E aí, minha querida, como foi seu dia? Vejo que pegou uma poeirinha. Deixo pegar um paninho e dar um trato em você.

E a TV ficou novamente brilhante.

- Agora sim, amor!

Assistiu o telejornal com indiferença para com as notícias dos atentados que haviam matado milhares de pessoas naquele dia.

Quando viu, da sala, sua esposa deitada no quarto, Roberto falou para o amor de tantas polegadas:

- Vou te abandonar agora... Está na hora de brincar um pouquinho de prazer.

Roberto fitou pela última vez sua mais nova xodó e se locomoveu ao quarto para fazer o bom uso de sua esposa. Depois de chegar no ápice, deixou seu corpo cair no outro lado da cama e entrou em sono profundo.

Ao amanhecer do dia seguinte, Roberto acordou e foi logo ao banheiro. Ao se olhar no espelho levou uma baita susto. Aquele espelho caro estava com várias manchas de pasta de dente!

"Smack, Smack"

- É absurdo que eu tenha te ignorado por tanto tempo! Não serei mais ausente em tua vida!

23/10/2014

[Crônica] Pedro e o Sofá

Pedro é um trabalhador e pai de família. A breve narrativa a seguir descreve um dia corriqueiro em sua vida.




São seis horas da manhã em ponto. O alarme do celular começa a tocar conforme o programado. Pedro dá um salto da cama e corre ao banheiro. Após se aliviar, escovar os dentes e se arrumar, agora se dirige à cozinha. Sua esposa, Lúcia, que acordara meia hora antes, já havia preparado o café. Pedro arrasta a bruscamente a cadeira e se senta para tomar aceleradamente seu café-da-manhã.

- Não entendo o motivo de se escovar os dentes antes do café. Do que adianta? - retrucou a esposa.

- Isso é um comportamento automático, querida. Cresci com esse padrão. Agora me deixe tomar o café pois já estou me atrasando.

Em menos de dois minutos, Pedro já havia engolido o pão francês com manteiga e seu copo habitual de pingado. Levantou da cadeira, voltou ao quarto, pegou a chave do carro e correu para dar partida no seu popular.

Enquanto percorria até o seu trabalho, preocupações sondavam a mente do pai de família. Seu salário apertado o sufocava e mal dava para pagar o financiamento do carro, aluguel da casa e as contas básicas como luz, água, internet e supermercado. Mesmo formado, Pedro percebera que diploma de ensino superior não valia mais do que antigamente e seu sangue ferveu ao lembrar do seu irmão, que mesmo só estudado até o Ensino Médio, tinha uma empresa de informática e lucrava o dobro, ou mais, do que ele.

"Essas faculdades de hoje só pensam no lucro. Diploma virou apenas negócio."

Tal frase martelava em sua mente há tempos.

Pontualmente chegando na empresa, Pedro é abordado pelo seu chefe.

- Sabemos que você pode mais que isso, Pedro.

- Sim. - respondeu com certo tom de irritação.

- Os lucros da empresa caíram mês passado e precisamos recuperar agora. Para isso vou precisar que você faça hora extra e venha trabalhar aos finais de semana. A empresa precisa e você e você dela.

- Aproveitando, Geraldo, eu preciso de um pequeno aumento de salário. Estou meio no vermelho, sabe? Não estou dando conta de pagar as prestações do meu carro, minha conta tá negativa e correndo juros bancários e estou tendo de negar guloseimas que meu filho pede no mercado...

- Tudo virá no tempo certo, Pedro. Você faz um grande trabalho e um dia será recompensado. Pode ter certeza disso.

Ao sair da vista do chefe, Pedro deu um suspiro que misturava ódio e desesperança. O tal "tempo certo" vem saindo da boca de seu chefe há quase dois anos.

Na hora do almoço, na parte externa da firma, Pedro senta-se ao lado de seu melhor colega, Thiago, às sobras de uma grande e bela árvore.

- Sabe, Thiago, a vida é uma grande merda!

- O que aconteceu desta vez?

- Às vezes me pergunto se somos humanos mesmo ou robôs de carne e osso. Parece que nossa vida é destinada a cumprir padrões desde o momento que nascemos. Padrões naturais e outros padrões que se tornaram naturais. Temos de estudar, se formar, trabalhar, se casar, ter filhos, envelhecer e morrer sem, ao menos, fazer algum feito importante. Nossa existência pode ser comparada com a de uma barata ou qualquer outro bicho asqueroso.

- Que isso, Pedro. Pensar deste jeito não vai te ajudar em nada.

- Aceitar tudo isso também não vai, parceiro. Estou de saco cheio deste lugar. Os donos enxergam nós como simples máquinas de dar lucros. Eles adoram cobrar prontidão de nossos deveres, mas essa mesma prontidão não existe quando pedimos nossos direitos.

- Qualquer empresa é assim, cara. A gente pode encontrar um dom ou abrir um próprio negócio. Nada melhor do que a gente ser o chefe.

- É tão fácil que 95% da sociedade não consegue chegar nesse ponto. Abrir algo demanda muito dinheiro e não consigo poupar ganhando tão pouco e tendo tantas dívidas. É um buraco sem fundo.

- Vamos parar de pensar assim. Otimismo. Vamos tocando dia após dia com determinação que chegaremos a conquistas nossos sonhos!

- Credo, Thiago. Você está parecendo nosso chefe. É assim mesmo que o topo da pirâmide quer que a gente pense.

Terminado o horário do almoço, nosso pai de família trabalha o restante do expediente com a cabeça bem longe dali.

- Querido, isso são horas?

- Não me enche, Lúcia.

- Lúcia? Você nunca me chama pelo nome, o que está acontecendo?

- Trabalharei fora do horário durante esse mês todo. Para variar a empresa teve lucros reduzidos e nós, os peões, teremos de nos matar para enriquecer ainda mais o dono daquela merda. Enquanto isso, aqui estou nessa merda de vidinha padrão, mal conseguindo pagar as contas em dia. Cadê minha vida social? Na lata do lixo!

- Merda de vidinha padrão? Você está me ofendendo, seu grosseiro!

Pedro acenou negativamente com a cabeça e se esticou no sofá da sala.

- Todos nós vivemos numa merda de padrão. Não se ligou que somos instrumentos de lucro dos políticos e empresários? Temos de produzir, produzir e produzir e aceitar migalhas em troca. Grande partes das migalhas vai para pagar impostos ao governo... E cá estamos, endividados e numa vidinha medíocre.

- Ao invés de ficar se lamentando poderia fazer acontecer. Buscar mudanças... Mas prefere ficar aí relinchando. Na hora que você entrar em depressão quero ver...

- A vida já é uma depressão, amor. Cadê o Michael?

- Foi na festa da aniversário do filho do nosso vizinho Otávio.

Lucia sentou-se no outro sofá e apanhou o controle remoto. Estava na hora de sua novela.

- Não sei como você gosta de assistir essas porcarias.

- Nossa, fique na sua e pare de pegar no meu pé.

- Já parou de pensar que está sendo mais uma marionete do padrão de vida social? Você só assiste essas porcarias de novelas, programas de fofocas e ainda acessa a internet para também ver fofocas. O que a vida de pessoas ricas possui a ponto de deixar pessoas como você tão obcecadas por elas? Enquanto esses famosos estão ricos e sequer sabendo de sua existência, você fica babando ovo pra eles. Lamentável.

- São pessoas famosas e ricas, infelizmente ao contrário de você, Pedro. Você é tão acomodado que reclama da porra de seu trabalho todo o santo dia, mas não vai atrás de coisa melhor. Um banana. Foi com isso que me casei, um banana!

- Não temos nada a mais do que a necessidade de buscar uma contínua evolução através do conhecimento. Somos reféns desse sistema, Lúcia. 95% dos homens são bananas. Não temos como escapar. Ficar o dia inteiro cuidando da vida de pessoas que sabem que você existe é o cúmulo do ridículo.

- Assim que eu conseguir matricular o Michael na escolinha, irei procurar um emprego. Você exagera, Pedro. Me ofende.

Àquela altura, Lúcia perdera a vontade de assistir sua novela e saiu batendo os pés em direção ao quarto. Minutos depois, Michael apareceu na porta guiado pelo vizinho. Pedro e Otávio trocaram breves cumprimentos e logo se despediram.

- Oi papai!

- Oi filhão! Como foi seu dia?

- Foi legal. Cadê a mamãe?

- Já está dormindo.

- Papai, estava conversando com outras crianças... Vai demorar muito para eu virar adulto?

- Torça para que sim, meu lindo. Se pudéssemos, todos nós, os adultos, viveríamos a magia da infância para sempre. A vida adulta é um saco. É quando se torna adulto que o mundo fica menos colorido. Então trate de aproveitar essa infância ao máximo, campeão!

- Tá bom, papai. Vou deitar com a mamãe.

- Tudo bem, boa noite! - disse acariciando a cabeça do filho.

- Você não vem?

- Não. Papai vai dormir aqui no sofá hoje e não vai ser agora.

"Não gosto de dormir cedo. Já passo a maioria do tempo trabalhando e dormir seria encurtar ainda mais minha vida social, mesmo que esta não seja algo considerado como excepcional. Esse manual da vida, com direitos e deveres, esse show de padrões que afunda a vida de qualquer ser que seja, propriamente, racional deveria ser queimado. As pessoas gostam de apontar o que podemos ou não fazer, como se fossem donas de nossas vidas. Se tem algo que concluí nessa vida é que isso de "certo e errado" é totalmente relativo. Talvez deveríamos a cultivar mais o amor por nossas pessoas queridas, embora a vida não seja muito virtuosa nesse setor, também. Desde cedo somos obrigados a conviver com a saudade de pessoas queridas que se vão e logo, quando partirmos, também deixaremos as pessoas nos amam com saudade. A aceitação é uma estratégia deprimente de vida, porém necessária. Existe uma força maior que nossos anseios. Uma força que não dá trégua e que nos rebaixa a meras peças de um tabuleiro chamado existência. Peças estas que são frequentemente trocadas ao longo do tempo. Com o tempo aprendi que sou insignificante demais a ponto de querer rotular, julgar ou apontar o dedo para outras pessoas. Toda essa subjetividade não faz sentido algum. Sei que dias, como o de hoje, se repetirão e talvez eu não seja forte o suficiente para correr de tal acomodação, mas me dou o direito de conviver com essa realidade que me dá o dever de não me entregar às futilidades como a maioria das pessoas. Boa noite a todos!"

Após fazer tal publicação, Pedro fechou seu notebook e ficou inerte, deitado e olhando para o teto, esperançoso que o sono o acometeria em instantes. Sentiu-se mais confortável após o desabafo. Como o sono não veio, minutos depois abriu novamente o notebook e navegou até seu perfil na rede social. Um amigo tinha comentado o seu texto.

"É meu caro amigo. . . O excesso de realidade corrói a alma de uma pessoa. Tenha uma boa noite, também! Abraços!!!"

Algumas lágrimas correram por suas bochechas. Nem o próprio Pedro sabia ao certo quais os sentimentos passavam por sua mente. Mais uma vez sentiu-se como um cisco diante do tamanho do universo e da existência. A única certeza que tinha é que, por mais tempo que vivesse, muitas perguntas ficariam sem respostas.


"Decifrar a vida é o melhor caminho para a insanidade. Agora sim, boa noite!" - treplicou.

Demorou mais alguns minutos conseguir pregar os olhos. Mais um dia da vida de Pedro chegava ao fim. Os dias poderiam acabar, mas as incertezas jamais.






20/10/2014

Maioria x Minoria



Nenhum embate entre maiorias e minorias se sustenta.

A sociedade é um sistema tão complexo e diverso que faz com cada indivíduo seja, ao mesmo tempo, maioria e minoria em diferentes questões.

Fulano é heterossexual, portanto maioria no quesito orientação sexual; o mesmo Fulano é ateu, o que faz dele integrante de uma minoria no âmbito religioso.

Ciclano é cristão, maioria religiosa; Todavia ele é bilionário, minoria econômica.

Com esses exemplos minúsculos podemos ter uma noção acerca da relatividade do assunto.

Quando um candidato a presidência trouxe à tona a expressão “a maioria tem que enfrentar essa minoria” tivemos várias pessoas que o apoiaram, o que é perigoso. Quando as eleições terminaram com tal candidato tendo 0,4% dos votos válidos, teve-se a prova que ele mesmo representa uma minoria de eleitores.

O reconhecimento da pluralidade social é essencial para vivermos em regime de paz e respeito. Nenhuma minoria deve se curvar para uma maioria, pois, como vimos, ninguém é plenamente uma minoria ou maioria. São rótulos desgastados utilizados para sustentarem visões fascistas e totalitárias. O pior é que há quem defenda que a democracia seja opressão às classes minoritárias.

O problema do ser humano é seu incessante desejo de se sentir superior. A segregação da sociedade é a melhor prova do quanto a humanidade é frágil e infantil. Enquanto os homens disputam poder, não percebem o quão insignificantes são se comparados à grandeza de todo o universo.

A única maioria que deveria ser combatida é a de ignorantes. Mas calma, esse combate tem de ser com conhecimento. Infelizmente é um combate falido, pois a maioria dos governos se interessam por esses conflitos civis, pois tiram a atenção dos poderosos enquanto os mesmos mantêm e ampliam seus interesses próprios. Afinal a ignorância sempre foi e será a melhor arma para controle dos reféns do sistema.